domingo, 1 de março de 2015

Um Rio de 450 janeiros


Rio, precisamos conversar.

Quando eu era criança, minha mãe avisava: "dia tal, vamos na cidade". E era um acontecimento. Aqui na Baixada, engraçado, a gente te chama assim. E eu ficava dias pensando em você. Não eram tempos muito confortáveis, então eu ia até o Centro, só. Mas tinha lanche, tinha eu atravessando as quatro pistas da Av. Presidente Vargas gritando de nervoso, aquilo era enorme, tinha minha mãe morrendo de rir, era uma delícia.

Tinha mais.

Meu tio sempre levava a gente à praia. Fazia assim: ia até a Central, de ônibus, e pegava mais um pro Flamengo. Descia na Praia e entrava andando. E aí eu comecei a te desvendar. Comecei logo pela vista mais famosa do mundo porque sou desses: quantas e quantas fotos já tiraram de você nesse ângulo, com o Pão de Açúcar ao fundo? Você fica ótima assim. Linda pose.

Disco Voador, Imperator, festa junina na Maré, Olimpo. Eu fui apresentado ao seu lado C. Mas não tô reclamando não, cara. Cariocas chamam a mulher de "cara", né? É legal isso. Então... desde cedo aprendi a amar todos os seus lados. Você é complexa mesmo, cheia de mágoas mas sempre sustentando aquele sorriso que nego atravessa meio mundo só pra ver.

E aí, comecei a namorar, aquela neguinha foi uma dádiva pra mim, presente seu, eu sei. E você emoldurou todo aquele amor. E cara, ela morava no térreo em Botafogo, quase Humaitá, mas dava pra ver o Cristo da janela! De frente! Tem noção? Até hoje, eu olho pra ele lá em cima, de braços abertos, e me sinto guardado, feliz e agradecido por ter sido escolhido pra viver algo tão lindo.

Lindo te descobrir, Rio. Lindo viver na Ilha, lindo desvendar suas favelas, seu povo, subir o Chapéu (porra, que vista, hein?), entrar na Maré, conhecer o Alemão. Churrasco em Ramos, cervejinha na Vila da Penha, e aquele rolé em Realengo? Av. Brasil, eu tô sempre nela, amor. Irajá tem samba, Sapucaí tem desfile, Marechal tem batata, Madureira tem... ah, Madureira tem muito amor em cada rua, cada quadra, cada esquina. A encruzilhada da cidade que se confunde aqui dentro de mim.

Tem a Lapa, tem a Praça Mauá, tem onde nossos pretos mais velhos chegaram, doídos pela viagem que lhes arrancou a alma, os nomes e qualquer história. Mas não lhes arrancou a dignidade. E estamos aqui, de pé, mesmo pilhados, moídos, seja pelos senhores de outrora, seja pelos senhores atuais, bandidos de terno e mandato que insistem em acabar com você. Mas você é boa nesse negócio de se reinventar, né? E sempre ressurge mais linda, mais quente. Cada vez mais gostosa, haja tesão pra te aguentar uma noite inteira, mas vem, a gente aguenta.

Claro, meu amor, eu gosto das suas praias também. Praia Vermelha, Arpoador, morro dos prazeres que você me dá. Mas é que delas, as praias, todo mundo fala e, você sabe, eu detesto ser comum. Mas eu deixei tanta coisa de fora... olha, na verdade, vim aqui pra conversar. Você já me viu tão feliz, já me viu chorando, já me viu nervoso, já me viu bêbado - desculpa, eu sei, me viu muito bêbado. Mas hoje eu tô aqui, cansado do que fazem com você, com medo do que você vai virar, mas completamente apaixonado por você e pela sua beleza.

Não é você, não sou eu. A gente sabe quem tá fazendo isso, né? Lógico. Olha, eu preciso de um tempo. Talvez precise ir ali, talvez precise respirar, mas eu volto. Pra você eu sempre volto. Você me deu tudo o que eu tenho, me deu tantos amigos, tantas risadas, tantos dramas. Me deu tantos amores, ah, os amores... sinto o gosto de cada um como se ainda estivessem aqui, comigo. Talvez ainda estejam. Verdade, sempre estarão.

Você sempre vai estar comigo, Rio. A gente tá tentando te entender há 450 anos e não consegue, é que você também é foda, não facilita, mas não é pra ser fácil, né? Eu só queria agradecer, por tanto amor, por tanta proteção, por tanto me ensinar, por me acolher, por me divertir, por me consolar e por me fazer crescer. Aquele menino que atravessava a rua gritando de nervoso (não ri, eram quatro pistas), hoje não grita. Mas o coração bate igual. Não, mentira: bate mais forte. Impossível ser indiferente à você.

Se cuida, tá? São 450 janeiros.

Te amo, Rio.