sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A esperança em uma bomba-relógio

(Foto: Eduardo Naddar - Agência O Dia)

Vamos lá.

Vocês estão anotando? Patrick, Elizabeth, Eduardo, Rafael, Wanderson, Gilson. E agora, Christian. Tem mais: só esse ano, 408 pessoas morreram em supostos confrontos com a gloriosa polícia militar. Esse número é até julho. Logo, 408 e contando. Logo (2), Christian nem estatística ainda é.

É suportável viver numa sociedade onde ir à praia é uma atitude suspeita, dependendo da cor da sua pele? E viver num lugar onde jogar bola é perigoso não pelo contato físico, inerente ao esporte, mas pela chance de se levar um tiro de uma polícia assassina e caçadora de pobre?

"Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar..."

Por que o corpo preto estirado no chão não comove você? E se Christian estivesse andando de bicicleta na Lagoa, você teria pena dele? Sim, eu sei que você pensaria que ele tava ali para assaltar alguém - afinal, "esse vagabundo já tinha quatro passagens, já roubou, pra matar não custa, tem que morrer mesmo." Matar não é certo, desde que o morto não seja preto - aí pode. Não é assim que você pensa? Confessa, vai. Não tem ninguém te olhando...

A "ideologia da eliminação" é amplamente defendida pela classe média decadente, reacionária, violenta e ignorante que assola o Brasil. Por trás desse ideário, há o racismo velado, covarde, enraizado, simbolizado por elevadores de serviço, por cadeiras de engraxate, por vidros que sobem quando atravessamos a rua ou por pedradas que atingem a cabeça de crianças de turbante, guia e fé numa religião de preto...

"Esse é o xis da questão:
já viu eles chorar pela cor do Orixá?"

Nas redes sociais, pessoas mudam a cor de suas fotos para dizerem, em alto e bom amor: "love wins!" Você não concorda, claro - e tomado por um ódio doentio e infeliz, vaticina: "mas de criança passando fome na África ninguém fala!

Mas criança passando fome na sua cidade tem que morrer, segundo você. Qual é a sua lógica, amigo? Explica porque eu não consigo entender. Porque você, defensor da família, da moral, dos bons costumes, que come a secretária fora de casa, que vai no sapatinho atrás das "travestis" madrugada adentro, que faz aquelas piadas racistas que seus amiguinhos adoram... você luta pelo quê? Já sei: você se afunda nessa cadeira de onde me lê agora, prepara os dedos e diz que "tem que prender, tem que bater, favela só tem bandido, sementinha do mal, cadeia neles!"

"E os camburão, o que são?
Negreiros a retraficar..."

Você não quer resolver problema nenhum, né? Você quer continuar reclamando enquanto uma pá de gente continuar ameaçando seus privilégios. "Onde já se viu, um monte de preto, pobre, viado, um monte de mulher!, reclamar tanto? Muito mimimi, agora tudo é opressão."

Lindão, você ainda não percebeu, mas seu mundo tá caindo. Aquela parada de "disculpa, sinhô", de cabeça baixa, já era. Se você falar merda, será confrontado. Será cobrado. Será colocado contra a parede. E dada a sua pouca coragem, voltará atrás, dirá que foi um "mal-entendido", afinal, sua avó era negra, você tem amigos negros, você até fica com negras, né? Você já falou isso. Você é um otário.

Favela tá em pé porque nós estamos de pé desde a Diáspora. Nossos irmãos tombam através do seu chicote ou do seu fuzil, mas nenhum deles fica pra trás. Christian e todos os outros estão entre nós. E levamos todos conosco enquanto preparamos a sua queda, sinhô, a sua derrocada, sinhá.

"Favela ainda é senzala, jão
Bomba-relógio prestes a estourar..."

Tic-tac. Nós por nós.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Redução da capacidade mental

Frase escrita por um adolescente num muro da Escola João Luiz Alves, unidade do Degase na Ilha do Governador, Rio

Na manhã de 29 de agosto de 1997, o menino Ives Yoshaki Ota, 8 anos, foi sequestrado em casa, na zona leste da cidade de São Paulo. Após investigações, descobriu-se que a criança fora sequestrada e assassinada por dois policiais militares e um civil - todos, portanto, maiores de idade.

Corte rápido. 2015.

Iolanda Keiko Miashiro Ota, a mãe do menino sequestrado e morto, veste uma camisa com a imagem do filho. Deputada federal eleita para seu segundo mandato graças à sua tragédia pessoal, comemora a aprovação da tramitação da PEC 171, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos, dizendo que tal lei vai "diminuir a impunidade".

Entre impunidade e oportunismo, na noite de ontem, 1º de julho de 2015, fez-se meia-noite na história do Brasil: a juventude preta e pobre foi condenada às trevas de uma cadeia que não recupera ninguém - e nem foi feita para recuperar. Entre "democracia" (sic) e o Golpe, com G maíusculo, de Eduardo Cunha e seus patrocinadores, aprovou-se o terror: está aberta a temporada de caça ao jovem preto - tal como no século XIX, quando uma polícia recém-criada tinha como principal objetivo correr atrás de escravo "fujão".

Keiko Ota, a mãe que perdeu o filho, não tira a camisa com a imagem de seu menino morto. Não tira, também, o sorriso de quem se sente feliz por mandar pra cadeia meninos e meninas que, na verdade, deveriam ser mandados pra escola, como seu filho ia. Pra escola ou pro parque. Pro campinho. Pra fazer música, dança. Pra jogar videogame. Pra brincar de boneca. Pra receber todo o amor que a sociedade acha que só alguns merecem.

Mas para essa mãe, síntese de uma sociedade doente, em nome do seu menino, crianças têm que ir para a cadeia. Sua lógica cretina e covarde a fez defender uma emenda constitucional assassina, racista e classista, defendida por seus pares, pessoas que ao mesmo tempo em que defendem redução da maioridade penal, defendem também a privatização dos presídios. Percebam: mais presos, cadeias privadas. Se ligou? Há gente lucrando com isso.

Assim como há gente lucrando com a histeria de uma classe média que só sabe gritar, agredir, bater panela na varanda e chamar a Dilma de "vagabunda". Há gente lucrando com a absurda sensação de insegurança que, sim, nos consome - mas que só incomoda quando é do túnel pra lá. Onde um tiro (ou uma facada, como queiram) vale mais, em Benfica ou na Lagoa? Que vida vale mais, a do branco de classe média que vende drogas, ou a do negro favelado traficante?

"Bandido bom é bandido morto", mas se um amigo seu estupra uma mina você diz que foi um "mal-entendido". "Melhor do que foto colorida é lutar pelo fim da fome na África", mas se um moleque te pede um trocado pra comer você vira até a cara (e não, a África não é um país). "Tá com pena leva pra casa", "queria ver se fosse contigo", "tomara que estupre uma filha sua"... percebam: o ódio de vocês é doentio, obsessivo e mais violento do que o moleque que porta um canivete. E se diante disso tudo, o culto de domingo te traz paz, é porque sua fé é por comodismo, auto-salvação ou medo. Na prática, você não acredita em nada - só não tem coragem de admitir.

Reduzir a maioridade penal é, em resumo, encarcerar mais pretos e pobres, negando-lhes qualquer oportunidade de mobilidade social. Vocês podem defender o que quiserem, mas pelo menos sejam honestos e assumam que o que vocês querem, no fundo, é isso mesmo. E tem o seguinte: a partir de agora, jovens de 16 anos podem comprar e consumir bebidas alcoólicas e cigarro, podem dirigir e também fazer filmes pornográficos. As prisões para maiores de idade, já absolutamente saturadas, ainda receberão, a partir de agora jovens de 16 a 18 anos. E quando sua sensação de impunidade não passar (não, ela não vai passar), o que você vai defender? Redução para 14 anos? 12? Que tal encarcerar a mulher grávida, e soltá-la, junto com seu filho, apenas mediante bom comportamento?

Mas você não pensou nada disso. Sou capaz de dizer que você sequer pensou, contaminado pelo pavor dantesco (ou datenesco?) propagado pelos programas de TV do início da noite, apavorado por uma política de segurança pública que só sabe usar a polícia e a porrada, e acuado por uma lógica perversa que preconiza que tudo o que é ameaça tem que sair da sua frente. Nem que seja para debaixo do tapete. Só cuidado para não tropeçar ao andar nele.

Eu morro de pena, e é tudo o que eu consigo sentir por vocês. Porque há anos lido com os sistemas penal e sócio-educativo, e repito: aquilo não funciona, nem foi criado para recuperar ninguém. Enquanto minha luta é para esvaziar aquilo, a de vocês é para encher, cada vez mais. Mas, mesmo assim, a minha luta é ali, por eles, ouvindo as histórias deles, olhando em seus olhos, ouvindo suas mães. Minha luta é ali, tentando criar, junto com eles, uma alternativa à condenação que vocês lhes impuseram. E seja qual for a maioridade penal, eu estarei lá amanhã. E depois, também.

E de novo. E sempre.

sábado, 4 de abril de 2015

"Polícia passa e fica a dor"*

(Arte: Vitor Teixeira)
Crucificamos mais um menino Jesus.

Se há dois mil anos, soldados romanos mataram Jesus, o Cristo de Nazaré, hoje soldados da PM carioca mataram um outro Jesus: Eduardo, o menino do Alemão. Na falta de uma cruz, o método foi bem mais cruel: a pacificação.

Com um caderno na mão, sentado na porta de casa, Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, fora atingido por um tiro de fuzil na cabeça, a uma distância de menos de 10 metros, pelas costas, por um capitão-do-mato covarde, empoderado por uma farda criada para servir e proteger tudo o que não for preto e pobre.

O menino tinha sonhos. No dia seguinte à sua morte, por exemplo, começaria um curso. No futuro, queria ser bombeiro. E morreu sem realizá-los, pois eles, os sonhos do menino Eduardo de Jesus, ficaram pela parede, misturados aos pedaços de seu cérebro estraçalhado, junto com seu sangue e com os gritos desesperados de seus pais, de mulheres e de homens sem voz, espalhados na composição de uma cena de terror que, não, não estreou nos cinemas. Na verdade, está longe de ser uma estreia - e está longe de ser ficção.

O soldado que pacificou Eduardo de Jesus ameaçou a mãe dele, Teresinha Maria de Jesus, dizendo que faria o mesmo com ela. Mais uma Maria chorava em uma Semana Santa. Ao pai, o carrasco de uma criança reservou palavras igualmente duras: "seu filho era vagabundo igual você". Enquanto tentava juntar os pedaços da cabeça de seu filho, José Maria Ferreira de Sousa tentava digerir a justificativa do algoz de sua criança mais amada. Tentava entender o que estava acontecendo, em que mundo estava, se aquilo era Alemão, Bagdá ou o inferno.

Era o inferno pacificado.

Teresinha Maria de Jesus, graças às forças de pacificação, terá que conviver para sempre com a dor de ver um filho morrer. Não fará isso de perto: cansada de uma cidade que lhe tirou a alma, se mudará para o Piauí, sua terra natal, onde irá enterrar seu filho, por não querer vê-lo descansar eternamente neste "lugar maldito".

Na verdade, malditos são aqueles que criam uma mentira chamada "polícia pacificadora", em nome de uma cidade-produto, feita para o deleite de empreiteiras que visam apenas a multiplicação de seus lucros através de megaeventos tão grandes quanto a violência produzida pelo Estado nas favelas.

Que pacificação é essa que, por onde passa, só traz dor? A PM carioca, por onde passa, deixa gritos, desconfiança, propinas, arregos, truculência, sangue, dor e mortes, muitas. Horas antes de pacificarem o menino Eduardo, um valoroso policial militar colocou o fuzil dentro da janela de um barraco e, como diz um certo imbecil na TV (e repetem seus imbecis seguidores), "sentou o dedo": Elizabeth de Moura Francisco, 40 anos, levou um tiro no pescoço e, pacificada, morreu. Sua filha, de 14 anos, atingida no braço, foi socorrida.

Em dois dias, quatro pessoas, duas senhoras e dois meninos, foram mortos pelo Estado no Complexo do Alemão. Elizabeth, Eduardo, DG, Cláudia e Amarildo (aliás, onde ele está?) foram pacificados por uma política de segurança racista, classista, covarde e exclusivamente policial - isso porque citei apenas os casos que tiveram relativo espaço na mídia. E os outros? Aqueles que não saem no jornal? E a Baixada, e São Gonçalo, e o interior? Em qualquer sociedade que queira ser levada a sério, o secretário de Segurança estaria preso, junto com o governador do Estado. Aqui, somos nós os prisioneiros, obrigados a engolir notas oficiais, declarações de "rigor na apuração" e, claro, o clássico "não iremos recuar".

Mas estamos acuados. Estamos contra a parede há tempos - a mesma parede onde, hoje, graças a um policial militar pacificador, escorre o cérebro do menino Eduardo de Jesus.

Estado pacificador: "polícia passa e fica a dor".

(*O título desse texto é o nome de um rap de um cara chamado MC Calazans​. E essa é minha homenagem a um rapper, preto, morador do Alemão, que usa a cultura, a luta e o coração para mudar o lugar onde vive - e ainda por cima, pra minha sorte, ainda é um parceiro com quem eu tive a honra de trocar várias ideias. Os bons são maioria.)

domingo, 1 de março de 2015

Um Rio de 450 janeiros


Rio, precisamos conversar.

Quando eu era criança, minha mãe avisava: "dia tal, vamos na cidade". E era um acontecimento. Aqui na Baixada, engraçado, a gente te chama assim. E eu ficava dias pensando em você. Não eram tempos muito confortáveis, então eu ia até o Centro, só. Mas tinha lanche, tinha eu atravessando as quatro pistas da Av. Presidente Vargas gritando de nervoso, aquilo era enorme, tinha minha mãe morrendo de rir, era uma delícia.

Tinha mais.

Meu tio sempre levava a gente à praia. Fazia assim: ia até a Central, de ônibus, e pegava mais um pro Flamengo. Descia na Praia e entrava andando. E aí eu comecei a te desvendar. Comecei logo pela vista mais famosa do mundo porque sou desses: quantas e quantas fotos já tiraram de você nesse ângulo, com o Pão de Açúcar ao fundo? Você fica ótima assim. Linda pose.

Disco Voador, Imperator, festa junina na Maré, Olimpo. Eu fui apresentado ao seu lado C. Mas não tô reclamando não, cara. Cariocas chamam a mulher de "cara", né? É legal isso. Então... desde cedo aprendi a amar todos os seus lados. Você é complexa mesmo, cheia de mágoas mas sempre sustentando aquele sorriso que nego atravessa meio mundo só pra ver.

E aí, comecei a namorar, aquela neguinha foi uma dádiva pra mim, presente seu, eu sei. E você emoldurou todo aquele amor. E cara, ela morava no térreo em Botafogo, quase Humaitá, mas dava pra ver o Cristo da janela! De frente! Tem noção? Até hoje, eu olho pra ele lá em cima, de braços abertos, e me sinto guardado, feliz e agradecido por ter sido escolhido pra viver algo tão lindo.

Lindo te descobrir, Rio. Lindo viver na Ilha, lindo desvendar suas favelas, seu povo, subir o Chapéu (porra, que vista, hein?), entrar na Maré, conhecer o Alemão. Churrasco em Ramos, cervejinha na Vila da Penha, e aquele rolé em Realengo? Av. Brasil, eu tô sempre nela, amor. Irajá tem samba, Sapucaí tem desfile, Marechal tem batata, Madureira tem... ah, Madureira tem muito amor em cada rua, cada quadra, cada esquina. A encruzilhada da cidade que se confunde aqui dentro de mim.

Tem a Lapa, tem a Praça Mauá, tem onde nossos pretos mais velhos chegaram, doídos pela viagem que lhes arrancou a alma, os nomes e qualquer história. Mas não lhes arrancou a dignidade. E estamos aqui, de pé, mesmo pilhados, moídos, seja pelos senhores de outrora, seja pelos senhores atuais, bandidos de terno e mandato que insistem em acabar com você. Mas você é boa nesse negócio de se reinventar, né? E sempre ressurge mais linda, mais quente. Cada vez mais gostosa, haja tesão pra te aguentar uma noite inteira, mas vem, a gente aguenta.

Claro, meu amor, eu gosto das suas praias também. Praia Vermelha, Arpoador, morro dos prazeres que você me dá. Mas é que delas, as praias, todo mundo fala e, você sabe, eu detesto ser comum. Mas eu deixei tanta coisa de fora... olha, na verdade, vim aqui pra conversar. Você já me viu tão feliz, já me viu chorando, já me viu nervoso, já me viu bêbado - desculpa, eu sei, me viu muito bêbado. Mas hoje eu tô aqui, cansado do que fazem com você, com medo do que você vai virar, mas completamente apaixonado por você e pela sua beleza.

Não é você, não sou eu. A gente sabe quem tá fazendo isso, né? Lógico. Olha, eu preciso de um tempo. Talvez precise ir ali, talvez precise respirar, mas eu volto. Pra você eu sempre volto. Você me deu tudo o que eu tenho, me deu tantos amigos, tantas risadas, tantos dramas. Me deu tantos amores, ah, os amores... sinto o gosto de cada um como se ainda estivessem aqui, comigo. Talvez ainda estejam. Verdade, sempre estarão.

Você sempre vai estar comigo, Rio. A gente tá tentando te entender há 450 anos e não consegue, é que você também é foda, não facilita, mas não é pra ser fácil, né? Eu só queria agradecer, por tanto amor, por tanta proteção, por tanto me ensinar, por me acolher, por me divertir, por me consolar e por me fazer crescer. Aquele menino que atravessava a rua gritando de nervoso (não ri, eram quatro pistas), hoje não grita. Mas o coração bate igual. Não, mentira: bate mais forte. Impossível ser indiferente à você.

Se cuida, tá? São 450 janeiros.

Te amo, Rio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Deusa da passarela e da minha vida

"Razão do meu cantar feliz..." (Foto: Tata Barreto/RioTur)

"Parece que o carnaval foi roubado esse ano."

Em maio, começaram as inscrições para as alas da comunidade, numa certa escola de samba de Nilópolis. Claro, você já sabe qual é. Como sempre, é aquela movimentação lenta, mas decidida, rumo à quadra, para garantir um lugar naquilo que "é feito uma reza, um ritual" (bença, madrinha Portela, meu respeito). Em junho, começa a disputa do samba-enredo, e a festa começa a ganhar uma forma musical. Vamos ouvindo, comparando, tentando ignorar as torcidas contratadas, os escritórios...

"Parece que ganhou roubado esse ano."

Em julho/agosto, a quadra começa a encher, vários eventos, barracão passando a terceira marcha, tá tudo tão longe, mas cadê que conseguimos viver sem isso? Bora encontrar amigos daqui e de outras escolas pra tomar uma cerveja, trocar uma ideia?, bora, partiu Madureira?, partiu. Vamos em outras, também. Vamos aonde o samba estiver.

"Mas ganhou roubado."

Setembro, outubro, reta final das inscrições pras alas. Ainda dá tempo, corre, fulana tem espaço na ala dela, ih, mas a fantasia não tá legal, parece pesada, ó naquela ali, só aceita mulheres, vamo nessa, acabaram as vagas?, ufa, achamos. Reta final, também, na disputa do samba-enredo. Semifinal, final, cacete, samba bonito. Quanto mais ouço, mais lindo fica. Quem nunca?

"Mas foi roubado."

E os ensaios começam pra valer. Ensaio de canto, sem bateria, sem som, sem nada. Carnaval é coisa séria - não deveria ser tanto, mas... sinal dos tempos. Toda quarta e quinta, todo sábado e toda segunda. Ensaio de canto, ensaio de bateria, ensaio geral, ensaio de comissão de frente, Sapucaí, 4 da manhã. Ensaiam muito, né? Não cansam nunca.

"Mas é roubado, só pode."

Quase tudo pronto, dezembro. Vamos entregar o barracão em janeiro, ensaio técnico, ensaio de quadra, ensaio de rua, bateria-show, escola-show, vamos viajar, outras cidades, estados, países. Mas é em Nilópolis que a gente se acha, se encontra e se reconhece. É na Baixada que nós nos aconchegamos no ninho, olhamos pro alto e temos a certeza que Cabana queria isso, quando fundou o Beija-Flor. O bloco, que saía ali na Avenida Mirandela. Mas que cresceu, afinal, quem disse que beija-flor não voa alto?

Roubaram nossa grandeza também?

Fevereiro. Tudo pronto, vai dar tempo de chegar? A Concentração é aonde?, é no Balança, desce na Central. Não, é nos Correios, Praça Onze. São 22h, o desfile é só às 2h, mas passa rápido. Tem que beber, é Carnaval, porra. Mas a cerveja nem desce. Bora trocar ideia com quem tá perto, com quem tá longe, com quem tá parado, andando. Veste aqui, me ajuda com a fantasia, essa cabeça tá pesada, né?, o braço tá me machucando, é assim, daqui a pouco acostuma.

É sofrido, mas não nos roubem isso, por favor.

E pronto. Neguinho, ex-da Vala, que não tinha um dente na boca, anuncia, pela 39ª vez, a entrada da escola que decretou que as definições de clichê foram atualizadas. "Amada, mas odiada." "Não vi, tava no bloco, mas não mereceu." "Bonito, mas roubado."

Roubado?

Eu lamento lhes informar, mas pedindo licença para você que me lê e tem olhos sensíveis, nosso povo tá cagando pro seu julgamento. Na verdade, sentimos o mesmo pelo julgamento seja lá de quem for. Bom mesmo é olhar pra si mesmo e se ver grande. Bom mesmo é o orgulho de pertencer à uma aldeia distante, quente, limitada e calorosa, mas onde se faz samba, onde se conquista títulos e onde se obtém o respeito do mundo do samba. Do samba de um ano todo, amigos (tem samba o ano todo, sabiam?), não dos mimados torcedores de quarta-feira de cinzas.

Precisamos discutir o carnaval. Precisamos discutir o preço dos ingressos, precisamos trazer o sambista de volta, precisamos garantir transparência na gestão de recursos, precisamos prestar contas, precisamos discutir o financiamento - seja ele vindo de governos democráticos, "democráticos", ditatoriais, ou do tráfico. Ou do bicho. Carnaval recebe dinheiro público, de dentro e de fora do Brasil, muito antes de você descobrir que Guiné Equatorial existia. Precisamos fazer tudo isso porque Carnaval é festa do povo, construída por ele e para ele. Construída por Cabana, João, pelo meu pai e minha mãe, por mim, pelos meus ancestrais, por você, pelos seus e por quem, cada um do seu jeito, ama e respeita tudo isso.

Mas antes, precisamos respeitar o esforço de seis mil pessoas que, direta ou indiretamente, colocam o carnaval de cada escola naquela reta que começa no Centro e termina no Catumbi. Ou que coloca todo seu amor e sua dedicação na Intendente, lugar onde a emissora dona da festa não vai. Intendente, gente, fica lá em Campinho. Lá só cabe amor, drama, dor, delícia, culpa e redenção. Lá só cabe a vida. Mas se nem lá você vai, fica difícil te defender, amor.

Eu quero dizer que estavam todas lindas, todas vocês. Sempre estão e sempre estarão. Eu sempre vou me curvar diante de uma bandeira de escola de samba. Cada uma me traz uma sensação diferente: me sinto impactado quando entro na quadra da Mangueira, me sinto acolhido quando vou à Portela, me sinto feliz na União da Ilha, ou num santuário quando vou ao Império Serrano e... me sinto em casa, no ninho, quando entro na Beija-Flor, ali na Pracinha Wallace Paes Leme, aqui em Nilópolis, morada da Deusa da Passarela.

Eu juro que queria ser capaz de tornar toda essa emoção palpável, só pra você tentar sentir por 5 minutos o que eu, graças aos mais velhos, aos meus pais e ao samba, sinto a vida inteira. Acredite, isso "prende, inebria, entontece". Não é roubo, não.

É fascinação, amor.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Há dores que valem mais?

Hoje de manhã me deparo com a seguinte capa, do jornal "O Dia":


A manchete retrata "o duro convívio com o preconceito", dando voz à muçulmanas que são vítimas de agressões nas ruas do Rio, num relato assustadoramente cruel de uma série de ataques sofridos por duas mulheres - uma empresária e uma estudante universitária. Mas a capa e os relatos me incomodaram duas vezes - e uma delas, suponho, não era o objetivo do jornal.

A capa é da edição do dia 2 de fevereiro, quando se comemora, no Brasil, o Dia de Iemanjá. Numa sociedade que afaga e apedreja como a nossa, Iemanjá é estigmatizada, demonizada e agredida o ano todo pela ignorância racista que transforma tudo o que é de África em algo ruim, mas recebe incontáveis rosas no dia 31 de dezembro, porque, afinal, no Ano Novo pode, né?

E é aí que eu queria chegar. Por que as religiões de matriz africana não têm o mesmo espaço na capa de um jornal de ampla circulação como "O Dia", ou qualquer outro? Por que as agressões, os insultos, as portas de emprego fechadas, os estigmas, as dores e os traumas dos praticantes da Umbanda e do Candomblé não recebem o mesmo tratamento da sociedade?

Exemplos não nos faltam. Vivemos numa sociedade onde o racismo é hipócrita, velado, relativizado e encoberto por panos quentes. Convivemos com juízes desprovidos de qualquer bom senso, que se julgam maiores que a lei, se achando no direito de dizer que Umbanda e Candomblé nem são religiões. Vivemos uma época em que traficantes proíbem Candomblé e até roupa branca em favelas do Rio.

Na Baixada Fluminense, um terreiro é incendiado pela sexta vez em seis anos - sem contar a tentativa de homicídio sofrida pela sua mãe-de-santo. Na Bahia, pedra sagrada do Candomblé é pichada e oferendas, destruídas. Minha pesquisa durou menos de dez minutos, só utilizou o Google e achou bem mais do que isso, mas vou parar por aqui. Você já viu algo assim na capa de um jornal? Na chamada de um telejornal? Mas no Dia de Iemanjá, vimos "O Dia" problematizar a terrível (e é terrível mesmo) situação que as mulheres muçulmanas vivem no Rio.

Nosso racismo hipócrita produz uma série de comportamentos curiosos. Produz o cidadão que toca "pagode gospel", onde há uma completa desconstrução do gênero musical, de suas origens e de seus motivos de existência, para que ele sirva aos propósitos do Deus Mercado - no caso, um mercado "santo"; produz o racista de ocasião, como o santista que defendeu o Aranha, agredido por imbecis gremistas, mas também proferiu ofensas racistas quando o goleiro deixou o clube, indo para o Palmeiras.

Temos o cristão fervoroso, praticante, cidadão de bem, que diz que "bandido bom é bandido morto"; temos o já citado sujeito que ofende os "macumbeiros" mas prepara sua oferenda no dia 31 de dezembro, e por aí vai. Incontáveis exemplos de uma sociedade fraturada, hipócrita, hostil, intolerante, seletiva e racista.

Um jornal, lógico, é o reflexo de uma sociedade. Em sua redação trabalham pessoas com diferentes pontos de vista, e ao lermos um jornal dando destaque à um determinado tema em detrimento de outros, é porque a sociedade também o faz. E os interesses mercadológicos da chefia dessa redação e desse jornal, claro, seguem o interesse da sociedade, ao mesmo tempo em que a molda e a conduz. É uma roda viva, complexa e - vá lá, eu me permito - quase sempre perversa.

Não pratico qualquer religião. Tenho um entendimento sobre ela polêmico e particular demais - mas esse é um assunto para uma outra resenha. Mas me sinto à vontade para dizer tudo o que disse por entender que todos e todas têm total direito à acreditarem no que quiserem - mesmo que seja não acreditarem em nada.

Lutar pela liberdade de culto é fundamental para todas as religiões - mas lutar pela liberdade de culto da Umbanda e do Candomblé é, acima de tudo, lutar pelo fim do racismo.

Muita paz às mulheres muçulmanas, e muita paz também ao Povo do Santo.