A manchete retrata "o duro convívio com o preconceito", dando voz à muçulmanas que são vítimas de agressões nas ruas do Rio, num relato assustadoramente cruel de uma série de ataques sofridos por duas mulheres - uma empresária e uma estudante universitária. Mas a capa e os relatos me incomodaram duas vezes - e uma delas, suponho, não era o objetivo do jornal.
A capa é da edição do dia 2 de fevereiro, quando se comemora, no Brasil, o Dia de Iemanjá. Numa sociedade que afaga e apedreja como a nossa, Iemanjá é estigmatizada, demonizada e agredida o ano todo pela ignorância racista que transforma tudo o que é de África em algo ruim, mas recebe incontáveis rosas no dia 31 de dezembro, porque, afinal, no Ano Novo pode, né?
E é aí que eu queria chegar. Por que as religiões de matriz africana não têm o mesmo espaço na capa de um jornal de ampla circulação como "O Dia", ou qualquer outro? Por que as agressões, os insultos, as portas de emprego fechadas, os estigmas, as dores e os traumas dos praticantes da Umbanda e do Candomblé não recebem o mesmo tratamento da sociedade?
Exemplos não nos faltam. Vivemos numa sociedade onde o racismo é hipócrita, velado, relativizado e encoberto por panos quentes. Convivemos com juízes desprovidos de qualquer bom senso, que se julgam maiores que a lei, se achando no direito de dizer que Umbanda e Candomblé nem são religiões. Vivemos uma época em que traficantes proíbem Candomblé e até roupa branca em favelas do Rio.
Na Baixada Fluminense, um terreiro é incendiado pela sexta vez em seis anos - sem contar a tentativa de homicídio sofrida pela sua mãe-de-santo. Na Bahia, pedra sagrada do Candomblé é pichada e oferendas, destruídas. Minha pesquisa durou menos de dez minutos, só utilizou o Google e achou bem mais do que isso, mas vou parar por aqui. Você já viu algo assim na capa de um jornal? Na chamada de um telejornal? Mas no Dia de Iemanjá, vimos "O Dia" problematizar a terrível (e é terrível mesmo) situação que as mulheres muçulmanas vivem no Rio.
Nosso racismo hipócrita produz uma série de comportamentos curiosos. Produz o cidadão que toca "pagode gospel", onde há uma completa desconstrução do gênero musical, de suas origens e de seus motivos de existência, para que ele sirva aos propósitos do Deus Mercado - no caso, um mercado "santo"; produz o racista de ocasião, como o santista que defendeu o Aranha, agredido por imbecis gremistas, mas também proferiu ofensas racistas quando o goleiro deixou o clube, indo para o Palmeiras.
Temos o cristão fervoroso, praticante, cidadão de bem, que diz que "bandido bom é bandido morto"; temos o já citado sujeito que ofende os "macumbeiros" mas prepara sua oferenda no dia 31 de dezembro, e por aí vai. Incontáveis exemplos de uma sociedade fraturada, hipócrita, hostil, intolerante, seletiva e racista.
Um jornal, lógico, é o reflexo de uma sociedade. Em sua redação trabalham pessoas com diferentes pontos de vista, e ao lermos um jornal dando destaque à um determinado tema em detrimento de outros, é porque a sociedade também o faz. E os interesses mercadológicos da chefia dessa redação e desse jornal, claro, seguem o interesse da sociedade, ao mesmo tempo em que a molda e a conduz. É uma roda viva, complexa e - vá lá, eu me permito - quase sempre perversa.
Não pratico qualquer religião. Tenho um entendimento sobre ela polêmico e particular demais - mas esse é um assunto para uma outra resenha. Mas me sinto à vontade para dizer tudo o que disse por entender que todos e todas têm total direito à acreditarem no que quiserem - mesmo que seja não acreditarem em nada.
Lutar pela liberdade de culto é fundamental para todas as religiões - mas lutar pela liberdade de culto da Umbanda e do Candomblé é, acima de tudo, lutar pelo fim do racismo.
Muita paz às mulheres muçulmanas, e muita paz também ao Povo do Santo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário