sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Querida Maria

Oi, Maria. Tudo bem? Eu espero que sim.

Eu queria falar com você. Sendo honesto, é sobre você. Eu não sei muito sobre sua vida. Na verdade, até essa semana, a sociedade não sabia nem da sua existência, menina. Você é capaz de nos perdoar em relação a isso?

Na verdade, nenhum de nós sabemos muito sobre quem você é, ou de onde veio. Mas eu sei que você gosta de brincar, né? Então... quando criança, às vezes, eu gostava de brincar de ser invisível. Fingia que botava uma capa que não deixava ninguém me ver. Você, menina, mesmo sem usar nenhuma capa, ficou invisível esse tempo todo. Não, não precisa me dizer como conseguiu, eu sei, a gente sabe, né? E em todos os seus 5 anos de existência, você esteve invisível para uma cidade inteira.

Até resolver tomar banho dentro de um bueiro, no centro da cidade olímpica.

Você deve estar assustada, Maria, com tanta gente subitamente interessada na sua vida. Querendo te ajudar, ajudar sua família. Família que, por ora, corresponde à sua avó - dona Raimunda, o nome dela, né? Sei que ela veio do Rio Grande do Norte com o pai e sete irmãos, todos já mortos. Sei que vocês, hoje, moram num barraco em uma favela de São João de Meriti, Baixada Fluminense, e aguardam, já cadastradas, por um apartamento do programa "Minha Casa, Minha Vida". Ó, Maria... não fala muito sobre isso não, tá? Sabe essa gente interessada na sua vida? Então, muitos deles acham errado um programa assim. Dizem que é preciso "ensinar a pescar". Quando você crescer, prometo que te explico.

Viu como eu já sei um pouco mais sobre você? É comum, depois de uma história assim, as pessoas se interessarem mais sobre a vida de quem as comove. Mas elas vão te esquecer logo, Maria. É assim mesmo, até a próxima Maria aparecer, talvez um José, ou até mesmo um gatinho, um cachorrinho, essa gente é assim, e aí você vai voltar a ser invisível, vai voltar a sofrer com o descaso, a violência, os riscos social e econômico. Eu tô falando difícil, né? Você só tem 5 anos. Não devíamos estar conversando sobre isso, nem sobre seus banhos em bueiros - aliás, quantos você já tomou? Em quantos te fotografaram?

Devíamos estar falando sobre a Barbie na sua blusinha, e sobre você gostar tanto de rosa. Devíamos estar falando sobre brincar de comidinha, de casinha, de boneco, de bola, queimado, do que você quiser. O rosa, da sua blusa, da saia, da sandalinha, realmente é uma cor bonita, que fica ainda mais bonita em você. Mas vão te dizer, em breve, que seu cabelo não é bonito. Que sua pele parece suja. E você provavelmente vai acreditar, porque não vai ver sua cor na TV, nos outdoors ou em homens engravatados, nem em mulheres de terninho. Mas não acredite, não. Em ninguém. Você é absolutamente linda, seu sorriso é lindo, seu cabelo, sua cor. "Da pele cor da noite", e também da cor de chocolate. Chocolate não é bonito? Você gosta de chocolate, né? Sim, é bom mesmo.

Maria, eu juro que queria te dizer, também, que não vamos te esquecer. Mas eu não posso te prometer isso porque eu acredito ser um crime mentir para uma criança. O que eu posso te dizer, com a mais absoluta certeza, é que eu tô trabalhando, assim como um punhado de gente, para que histórias como a sua nunca mais aconteçam. Nunca mais.

Pra terminar, Maria, porque o tio sabe que já tá chato: você quer ser professora, né? Sabe que minha mãe teve uma história bem parecida com a sua? Ninguém sequer a enxergava, na casa dela também não tinha água, nem banheiro. E, hoje, ela é professora, sonho que tinha quando era menina. Menina igual você.

Eu tava errado, Maria. Não vamos te esquecer, não. Um beijo.

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