"Razão do meu cantar feliz..." (Foto: Tata Barreto/RioTur)
Em maio, começaram as inscrições para as alas da comunidade, numa certa escola de samba de Nilópolis. Claro, você já sabe qual é. Como sempre, é aquela movimentação lenta, mas decidida, rumo à quadra, para garantir um lugar naquilo que "é feito uma reza, um ritual" (bença, madrinha Portela, meu respeito). Em junho, começa a disputa do samba-enredo, e a festa começa a ganhar uma forma musical. Vamos ouvindo, comparando, tentando ignorar as torcidas contratadas, os escritórios...
"Parece que ganhou roubado esse ano."
Em julho/agosto, a quadra começa a encher, vários eventos, barracão passando a terceira marcha, tá tudo tão longe, mas cadê que conseguimos viver sem isso? Bora encontrar amigos daqui e de outras escolas pra tomar uma cerveja, trocar uma ideia?, bora, partiu Madureira?, partiu. Vamos em outras, também. Vamos aonde o samba estiver.
"Mas ganhou roubado."
Setembro, outubro, reta final das inscrições pras alas. Ainda dá tempo, corre, fulana tem espaço na ala dela, ih, mas a fantasia não tá legal, parece pesada, ó naquela ali, só aceita mulheres, vamo nessa, acabaram as vagas?, ufa, achamos. Reta final, também, na disputa do samba-enredo. Semifinal, final, cacete, samba bonito. Quanto mais ouço, mais lindo fica. Quem nunca?
"Mas foi roubado."
E os ensaios começam pra valer. Ensaio de canto, sem bateria, sem som, sem nada. Carnaval é coisa séria - não deveria ser tanto, mas... sinal dos tempos. Toda quarta e quinta, todo sábado e toda segunda. Ensaio de canto, ensaio de bateria, ensaio geral, ensaio de comissão de frente, Sapucaí, 4 da manhã. Ensaiam muito, né? Não cansam nunca.
"Mas é roubado, só pode."
Quase tudo pronto, dezembro. Vamos entregar o barracão em janeiro, ensaio técnico, ensaio de quadra, ensaio de rua, bateria-show, escola-show, vamos viajar, outras cidades, estados, países. Mas é em Nilópolis que a gente se acha, se encontra e se reconhece. É na Baixada que nós nos aconchegamos no ninho, olhamos pro alto e temos a certeza que Cabana queria isso, quando fundou o Beija-Flor. O bloco, que saía ali na Avenida Mirandela. Mas que cresceu, afinal, quem disse que beija-flor não voa alto?
Roubaram nossa grandeza também?
Fevereiro. Tudo pronto, vai dar tempo de chegar? A Concentração é aonde?, é no Balança, desce na Central. Não, é nos Correios, Praça Onze. São 22h, o desfile é só às 2h, mas passa rápido. Tem que beber, é Carnaval, porra. Mas a cerveja nem desce. Bora trocar ideia com quem tá perto, com quem tá longe, com quem tá parado, andando. Veste aqui, me ajuda com a fantasia, essa cabeça tá pesada, né?, o braço tá me machucando, é assim, daqui a pouco acostuma.
É sofrido, mas não nos roubem isso, por favor.
E pronto. Neguinho, ex-da Vala, que não tinha um dente na boca, anuncia, pela 39ª vez, a entrada da escola que decretou que as definições de clichê foram atualizadas. "Amada, mas odiada." "Não vi, tava no bloco, mas não mereceu." "Bonito, mas roubado."
Roubado?
Eu lamento lhes informar, mas pedindo licença para você que me lê e tem olhos sensíveis, nosso povo tá cagando pro seu julgamento. Na verdade, sentimos o mesmo pelo julgamento seja lá de quem for. Bom mesmo é olhar pra si mesmo e se ver grande. Bom mesmo é o orgulho de pertencer à uma aldeia distante, quente, limitada e calorosa, mas onde se faz samba, onde se conquista títulos e onde se obtém o respeito do mundo do samba. Do samba de um ano todo, amigos (tem samba o ano todo, sabiam?), não dos mimados torcedores de quarta-feira de cinzas.
Precisamos discutir o carnaval. Precisamos discutir o preço dos ingressos, precisamos trazer o sambista de volta, precisamos garantir transparência na gestão de recursos, precisamos prestar contas, precisamos discutir o financiamento - seja ele vindo de governos democráticos, "democráticos", ditatoriais, ou do tráfico. Ou do bicho. Carnaval recebe dinheiro público, de dentro e de fora do Brasil, muito antes de você descobrir que Guiné Equatorial existia. Precisamos fazer tudo isso porque Carnaval é festa do povo, construída por ele e para ele. Construída por Cabana, João, pelo meu pai e minha mãe, por mim, pelos meus ancestrais, por você, pelos seus e por quem, cada um do seu jeito, ama e respeita tudo isso.
Mas antes, precisamos respeitar o esforço de seis mil pessoas que, direta ou indiretamente, colocam o carnaval de cada escola naquela reta que começa no Centro e termina no Catumbi. Ou que coloca todo seu amor e sua dedicação na Intendente, lugar onde a emissora dona da festa não vai. Intendente, gente, fica lá em Campinho. Lá só cabe amor, drama, dor, delícia, culpa e redenção. Lá só cabe a vida. Mas se nem lá você vai, fica difícil te defender, amor.
Eu quero dizer que estavam todas lindas, todas vocês. Sempre estão e sempre estarão. Eu sempre vou me curvar diante de uma bandeira de escola de samba. Cada uma me traz uma sensação diferente: me sinto impactado quando entro na quadra da Mangueira, me sinto acolhido quando vou à Portela, me sinto feliz na União da Ilha, ou num santuário quando vou ao Império Serrano e... me sinto em casa, no ninho, quando entro na Beija-Flor, ali na Pracinha Wallace Paes Leme, aqui em Nilópolis, morada da Deusa da Passarela.
Eu juro que queria ser capaz de tornar toda essa emoção palpável, só pra você tentar sentir por 5 minutos o que eu, graças aos mais velhos, aos meus pais e ao samba, sinto a vida inteira. Acredite, isso "prende, inebria, entontece". Não é roubo, não.
É fascinação, amor.

Um comentário:
Sou old school.
É linda a forma que o dia-a-dia e todo um ano de trabalho foram relatados. É importantíssimo pra quem não sabe (oi) perceber que tudo que aparece nos 60 minutos de TV é fruto de muito trabalho, muita gente, do ano passado ou há 100 anos. Que não se deixe as questões políticas e econômicas (passíveis e necessárias de discussão) esconderem a beleza de tudo e a força do povo. Lindo, tudo! <3
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