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| (Arte: Vitor Teixeira) |
Se há dois mil anos, soldados romanos mataram Jesus, o Cristo de Nazaré, hoje soldados da PM carioca mataram um outro Jesus: Eduardo, o menino do Alemão. Na falta de uma cruz, o método foi bem mais cruel: a pacificação.
Com um caderno na mão, sentado na porta de casa, Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, fora atingido por um tiro de fuzil na cabeça, a uma distância de menos de 10 metros, pelas costas, por um capitão-do-mato covarde, empoderado por uma farda criada para servir e proteger tudo o que não for preto e pobre.
O menino tinha sonhos. No dia seguinte à sua morte, por exemplo, começaria um curso. No futuro, queria ser bombeiro. E morreu sem realizá-los, pois eles, os sonhos do menino Eduardo de Jesus, ficaram pela parede, misturados aos pedaços de seu cérebro estraçalhado, junto com seu sangue e com os gritos desesperados de seus pais, de mulheres e de homens sem voz, espalhados na composição de uma cena de terror que, não, não estreou nos cinemas. Na verdade, está longe de ser uma estreia - e está longe de ser ficção.
O soldado que pacificou Eduardo de Jesus ameaçou a mãe dele, Teresinha Maria de Jesus, dizendo que faria o mesmo com ela. Mais uma Maria chorava em uma Semana Santa. Ao pai, o carrasco de uma criança reservou palavras igualmente duras: "seu filho era vagabundo igual você". Enquanto tentava juntar os pedaços da cabeça de seu filho, José Maria Ferreira de Sousa tentava digerir a justificativa do algoz de sua criança mais amada. Tentava entender o que estava acontecendo, em que mundo estava, se aquilo era Alemão, Bagdá ou o inferno.
Era o inferno pacificado.
Teresinha Maria de Jesus, graças às forças de pacificação, terá que conviver para sempre com a dor de ver um filho morrer. Não fará isso de perto: cansada de uma cidade que lhe tirou a alma, se mudará para o Piauí, sua terra natal, onde irá enterrar seu filho, por não querer vê-lo descansar eternamente neste "lugar maldito".
Na verdade, malditos são aqueles que criam uma mentira chamada "polícia pacificadora", em nome de uma cidade-produto, feita para o deleite de empreiteiras que visam apenas a multiplicação de seus lucros através de megaeventos tão grandes quanto a violência produzida pelo Estado nas favelas.
Que pacificação é essa que, por onde passa, só traz dor? A PM carioca, por onde passa, deixa gritos, desconfiança, propinas, arregos, truculência, sangue, dor e mortes, muitas. Horas antes de pacificarem o menino Eduardo, um valoroso policial militar colocou o fuzil dentro da janela de um barraco e, como diz um certo imbecil na TV (e repetem seus imbecis seguidores), "sentou o dedo": Elizabeth de Moura Francisco, 40 anos, levou um tiro no pescoço e, pacificada, morreu. Sua filha, de 14 anos, atingida no braço, foi socorrida.
Em dois dias, quatro pessoas, duas senhoras e dois meninos, foram mortos pelo Estado no Complexo do Alemão. Elizabeth, Eduardo, DG, Cláudia e Amarildo (aliás, onde ele está?) foram pacificados por uma política de segurança racista, classista, covarde e exclusivamente policial - isso porque citei apenas os casos que tiveram relativo espaço na mídia. E os outros? Aqueles que não saem no jornal? E a Baixada, e São Gonçalo, e o interior? Em qualquer sociedade que queira ser levada a sério, o secretário de Segurança estaria preso, junto com o governador do Estado. Aqui, somos nós os prisioneiros, obrigados a engolir notas oficiais, declarações de "rigor na apuração" e, claro, o clássico "não iremos recuar".
Mas estamos acuados. Estamos contra a parede há tempos - a mesma parede onde, hoje, graças a um policial militar pacificador, escorre o cérebro do menino Eduardo de Jesus.
Estado pacificador: "polícia passa e fica a dor".
(*O título desse texto é o nome de um rap de um cara chamado MC Calazans. E essa é minha homenagem a um rapper, preto, morador do Alemão, que usa a cultura, a luta e o coração para mudar o lugar onde vive - e ainda por cima, pra minha sorte, ainda é um parceiro com quem eu tive a honra de trocar várias ideias. Os bons são maioria.)

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