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| (Foto: Eduardo Naddar - Agência O Dia) |
Vamos lá.
Vocês estão anotando? Patrick, Elizabeth, Eduardo, Rafael, Wanderson, Gilson. E agora, Christian. Tem mais: só esse ano, 408 pessoas morreram em supostos confrontos com a gloriosa polícia militar. Esse número é até julho. Logo, 408 e contando. Logo (2), Christian nem estatística ainda é.
É suportável viver numa sociedade onde ir à praia é uma atitude suspeita, dependendo da cor da sua pele? E viver num lugar onde jogar bola é perigoso não pelo contato físico, inerente ao esporte, mas pela chance de se levar um tiro de uma polícia assassina e caçadora de pobre?
"Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar..."
Por que o corpo preto estirado no chão não comove você? E se Christian estivesse andando de bicicleta na Lagoa, você teria pena dele? Sim, eu sei que você pensaria que ele tava ali para assaltar alguém - afinal, "esse vagabundo já tinha quatro passagens, já roubou, pra matar não custa, tem que morrer mesmo." Matar não é certo, desde que o morto não seja preto - aí pode. Não é assim que você pensa? Confessa, vai. Não tem ninguém te olhando...
A "ideologia da eliminação" é amplamente defendida pela classe média decadente, reacionária, violenta e ignorante que assola o Brasil. Por trás desse ideário, há o racismo velado, covarde, enraizado, simbolizado por elevadores de serviço, por cadeiras de engraxate, por vidros que sobem quando atravessamos a rua ou por pedradas que atingem a cabeça de crianças de turbante, guia e fé numa religião de preto...
"Esse é o xis da questão:
já viu eles chorar pela cor do Orixá?"
Nas redes sociais, pessoas mudam a cor de suas fotos para dizerem, em alto e bom amor: "love wins!" Você não concorda, claro - e tomado por um ódio doentio e infeliz, vaticina: "mas de criança passando fome na África ninguém fala!
Mas criança passando fome na sua cidade tem que morrer, segundo você. Qual é a sua lógica, amigo? Explica porque eu não consigo entender. Porque você, defensor da família, da moral, dos bons costumes, que come a secretária fora de casa, que vai no sapatinho atrás das "travestis" madrugada adentro, que faz aquelas piadas racistas que seus amiguinhos adoram... você luta pelo quê? Já sei: você se afunda nessa cadeira de onde me lê agora, prepara os dedos e diz que "tem que prender, tem que bater, favela só tem bandido, sementinha do mal, cadeia neles!"
"E os camburão, o que são?
Negreiros a retraficar..."
Você não quer resolver problema nenhum, né? Você quer continuar reclamando enquanto uma pá de gente continuar ameaçando seus privilégios. "Onde já se viu, um monte de preto, pobre, viado, um monte de mulher!, reclamar tanto? Muito mimimi, agora tudo é opressão."
Lindão, você ainda não percebeu, mas seu mundo tá caindo. Aquela parada de "disculpa, sinhô", de cabeça baixa, já era. Se você falar merda, será confrontado. Será cobrado. Será colocado contra a parede. E dada a sua pouca coragem, voltará atrás, dirá que foi um "mal-entendido", afinal, sua avó era negra, você tem amigos negros, você até fica com negras, né? Você já falou isso. Você é um otário.
Favela tá em pé porque nós estamos de pé desde a Diáspora. Nossos irmãos tombam através do seu chicote ou do seu fuzil, mas nenhum deles fica pra trás. Christian e todos os outros estão entre nós. E levamos todos conosco enquanto preparamos a sua queda, sinhô, a sua derrocada, sinhá.
"Favela ainda é senzala, jão
Bomba-relógio prestes a estourar..."
Tic-tac. Nós por nós.
