segunda-feira, 4 de abril de 2016

Somos todos assassinos de crianças

Por que atiramos em crianças? (Fotos: Reprodução/Internet)
Há 26 dias, Caio Daniel Faria, de 14 anos, foi morto durante ação policial em Manguinhos enquanto jogava bola em uma localidade conhecida como... Campo da Esperança. Você nem deve ter sabido, ou se soube, nem deve lembrar, faz quase um mês, são tempos corridos, ninguém se importa.

A mãe de Caio, que preferiu não se identificar, se importa. Caio era uma criança e, quando não nos importamos com a morte de uma criança, é porque a matamos também.

Três dias antes da morte de Caio no Rio, Ana Beatriz Duarte e Sá, de 5 anos, brincava numa festa na casa do tio, no bairro Santa Catarina, em São Gonçalo, quando, de repente, caiu. O tio, ao socorrer a menina, percebeu que sua cabeça sangrava. Ana Beatriz fora atingida por uma bala que, de perdida, não tem nada (já viu, por exemplo, brancos serem atingidos por uma? Já flagrou balas voando a esmo pela Zona Sul carioca? Então). Após dias agonizando no hospital, a menina não resistiu e morreu.

Ana Beatriz tinha o sorriso lindo, como o de toda criança. Você lembra dela? Tem quase um mês, verdade, é difícil lembrar. E toda vez que esquecemos de uma criança morta a tiros, matamos-a um pouco também. Vê o sangue em suas mãos?

No domingo passado, enquanto você festejava a Páscoa na intenção de agradar um Cristo ressuscitado, Ryan Gabriel brincava na porta da casa dos avós, em Madureira. Sua cruz veio em forma de bala: o menino, atingido por um tiro, morreu. Ryan tinha 4 anos. Quatro. E sua mãe, Tayane Pereira da Silva, aos 20 anos, outra menina, portanto, se despedaçava durante o enterro de seu único rebento: "volta, meu filho!"

Ah, dessa você lembra. Quer ver? Ó: lembra da principal rua de Madureira fechada, de ônibus pegando fogo, das estações Otaviano e Vila Queiroz, do BRT, depredadas? Eu sei, você lembra sim.

Você lembra da "ação de vândalos que prejudicam a vida de um trabalhador", mas não lembra que isso se deu por causa de uma criança morta a tiros. Toda vez que você ignora a morte de uma criança, acaba contribuindo para que se mate a próxima. Você ajudou a matar Ryan.

Em menos de um mês, três crianças mortas. E contando.

Na tarde do último sábado, Matheus Santos Moraes, aos 5 anos, brincava de bolinha de gude na porta de casa quando, infelizmente, a gloriosa e tosca Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro entrou atirando em sua rua, na comunidade da Lagoa, em Magé. Matheus morreu. Mas a imprensa só se deslocou até Magé porque, em protesto, o morro desceu - e não foi Carnaval: 12 ônibus depredados e incendiados, lojas saqueadas, fúria e dor de uma gente pobre e preta que só é vista quando toca o zaralho. Se não tivessem incendiado a cidade, você nem saberia que matou o menino Matheus.

Por que você se ressente com os transtornos causados pelos protestos, mas não se ressente com uma criança que morreu sem viver absolutamente nada? Ônibus queimado é pouco. Cidade em chamas, caos, destruição, nada disso chega perto do transtorno que é (ou deveria ser) a morte de uma criança. Criança morta deveria causar a reinvenção do mundo, a prisão do comando da PM, do governador do estado, da presidente da República. E só no último mês, 4 morreram. Quatro! E em tempos de Lava-Jato, impeachment e similares, quem liga? Por não ligarmos, as matamos. Por não ligarmos, elas seguirão morrendo - e num mundo cada vez mais egoísta, nós só torcemos para que a criança morta não seja a nossa. Não será.

Até ser.

E Patrícia Moraes, a mãe de Matheus, que talvez já não acredite mais na vida, nas instituições, nem no certo/errado, em carma e similares, se pergunta: "eu espero criar meu filho Gabriel, né? Será que eu vou conseguir criar o meu filho Gabriel? Porque Matheus eu não consegui."

E não conseguiu porque nós matamos Matheus. Assim como matamos Caio, Ana Beatriz e Ryan. E no fim das contas, quando você relativiza a morte de uma criança e foca apenas num ônibus queimado, quem está morto, e nem sabe, é você.

Nos perdoem, crianças. Nos perdoem, mães. A gente não tem mais jeito.