Atingido por um tiro disparado por um policial, na porta de casa em plena manhã do dia 28, na favela do Muquiço, em Deodoro, Rio de Janeiro, o menino Ramom foi levado para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Como não havia neurocirurgião, recebeu apenas os primeiros socorros e foi encaminhado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde, por volta de 14h, começou a ser operado. Às 18h30, ele saiu do hospital, que não tinha CTI, e foi levado para o Hospital da PM. Mas era tarde demais. Uma semana após o crime, a Polícia Civil fará a reconstituição do caso. Não se faz idéia de quem seja o culpado. A mãe do menino acusa a Justiça de negligência.
Daniel foi baleado na madrugada do dia 28, em confusão na saída da boate Baronetti, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi atingido no tórax pelo terceiro tiro disparado pelo PM Marcos Parreira do Carmo, que antes deu dois tiros para o alto. O policial militar será denunciado por homicídio doloso nesta terça-feira. A mãe do rapaz se mostrou satisfeita com a posição do Ministério Público. “Eu não esperava outra coisa. Isso mostra que estamos no caminho certo. Agora vamos para cima, para a condenação. Vou acompanhar tudo isso de perto”, avisa a mãe, que ainda se choca por precisar lutar pelo que considera um direito.
Os dois crimes citados acima aconteceram quase ao mesmo tempo. Foram cometidos por policiais militares. E o tratamento diferenciado às vítimas é desumano, cruel. Nesse caso, a Justiça enxerga, e assim fazendo comete outro crime. Isso é o reflexo de uma cidade partida. Deodoro fica a uma hora de Ipanema, mas a real distância entre os dois bairros é de anos-luz. A família do Daniel acha um absurdo lutar por um direito, mas a de Ramom nem reconhece isso como direito, porque suas vidas valem um voto, um número na estatística.
Quantos e quantos casos parecidos aconteceram? Em quantas vezes ficou claríssima a diferença de tratamento, através do corte de renda? Aqui, há um fato novo e macabro: a coincidência de dia e, praticamente, de hora. Daria um filme. Você pagaria o ingresso?
Não precisa. Pega um trem pro subúrbio e abre a janela.
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