terça-feira, 6 de setembro de 2011

Racismo

No último domingo, o "Domingão do Faustão" levou ao ar um quadro chamado "Dança dos Famosos", que é mais um daqueles elementos simplórios de como nossa sociedade cultua as "celebridades" que surgem, pelo simples fato de existirem - seja cantando, dançando, enfurnada numa casa 24 horas por dia, fazendo o que não importa.

Aí, nesta competição, há um corpo de jurados. E entre eles, Rodrigo Lombardi, ator em ascensão, protagonista de "O Astro", me diz o Google. Que resolve, lá pelas tantas, assim justificar sua emoção com a dança recém-executada:



 ”Tem um cara que eu sou muito fã desde criancinha e acho que foi ele que me fez ser artista, juntamente com meu pai. Era um cara que na sua época era negro, caolho, um metro e cinquenta, chamado Sammy Davis Jr., que quando entrava no palco saía com dois metros de altura, loiro, de olho azul”.

Não quero, aqui, julgar o talento do Rodrigo, que segundo o Google (sim, ele me ajuda muito) já tem anos de carreira. Nem vou execrá-lo em praça pública, já há quem o faça, e aos montes. Quero falar de um buraco que tá bem mais lá embaixo.

O racismo no Brasil é natural. As pessoas falam sem perceber que errar é "coisa de preto", nos apontam o elevador de serviço "porque é assim mesmo", a polícia aborda os nossos porque somos "criminosos em potencial", o nosso cabelo é "ruim", e por aí vai. Tão natural que Rodrigo, estrela global - e, portanto, um cara que ajuda a ditar as regras comportamentais no Brasil - arrotou essa barbaridade sem nem ter percebido a merda que tava falando.

Não percebeu porque, na cabeça dele e da classe dominante (e de boa parte do povo preto), ser bom é ser loiro, dos olhos azuis, cabelos lisos. Não é coincidência o número absurdo de mulheres colocando seus cabelos em contato com um produto que, pra ser aplicado, exige máscaras e luvas de quem o manuseia. Olha o que isso faz mal - mas torna aquele cabelo "descuidado" algo socialmente aceito.

Um monte de gente corre pra acudir o Rodrigo, que parece até ser boa gente, até porque não nos lembra os Bolsonaros da vida. Mas é um cara que, tendo uma imagem muito mais simpática que o nobre deputado, faz um estrago muito maior do que ele ao falar sem usar o cérebro que, suponho, ele deva ter. Porque o preconceito racial no Brasil é o mais perverso que pode existir: velado, internalizado, natural. O indivíduo quase que já nasce entendendo o negro como alguém inferior, servo, menos capacitado.

E é tão natural que, amanhã, ninguém vai lembrar de porra nenhuma. Ou alguém fala do Bolsonaro? Da Myriam Rios? Ou da limpeza étnica promovida em nome dos megaeventos de 2014 e 2016 no Rio de Janeiro? É esse silêncio que mata. Porque as crianças veem esse estardalhaço todo durar alguns dias, mas absorvem cada palavra, gesto, olhar, pra além desses dias. E tenhamos certeza de que, assim, estamos formando crianças brancas racistas, crianças negras que terão a certeza de serem inferiores, em suma, um mundo muito pior.

Enquanto a discussão que é feita, de forma indignada, na Academia, ou nos coletivos de luta do movimento negro, não ganhar o subúrbio, as favelas, as periferias, a sociedade vai se indignar, levantar voz, execrar o racista em questão, e pronto, vai guardar tudo, beijo, onde é o churrasco?, e até a próxima.

Porque sempre tem a próxima.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Morre o Moto

O texto já tem quase um ano, eu sei - e, em Internet, isso quer dizer séculos. Mas é simplesmente o melhor texto sobre futebol que eu já li em toda a minha vida.

Exatamente porque não se resume ao futebol.

Morre o Moto

Por Luiz Antonio Simas
http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/08/morre-o-moto.html

Recebi hoje a confirmação de uma notícia lamentável. O Moto Club de São Luís, um dos principais clubes do Maranhão, dono de imensa torcida, encerrou as atividades no futebol profissional neste último dia 27 de agosto. A diretoria do Moto declarou não ter mais condições para manter o time diante das demandas do futebol atual [leia-se: falta grana].

Lamentável, rigorosamente lamentável , mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times.

Morre o Moto no momento em que morrem também as camisas dos clubes, mantos sagrados transformados em vitrines de exposição de toda a sorte de produtos: telefonia celular, pomada de vaca, plano de saúde, leite condensado, funerária, montadora de automóvel, empresa da construção civil e quejandos. Dia chegará em que os escudos serão tirados da camisa para sobrar espaço pra mais um jabazinho e ninguém perceberá.

Morre o Moto em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor, dos fabulosos investimentos para a realização da Copa de 2014, dos técnicos com salários de quinhentos mil reais, dos bandidos da bola e dos apóstolos dos gramados e seus moralismos de ocasião.

Morre o Moto como corre o risco de desaparecer a tradição do tambor de crioula do Maranhão. Nas palavras de um velho tambozeiro que conheci em Alcântara, os lugares onde se podia escutar o tambor são agora destinados ao reggae, para a alegria de antropólogos moderninhos e antenados que vêem em qualquer mistureba uma prova de vitalidade cultural. Viva o moderno e que se dane o eterno, goza o deus mercado.

Morre o Moto como pode morrer a Casa das Minas, venerável matriz da religiosidade afro-maranhense. As moças mais novas, dizem as velhas do tambor, não se interessam mais pelo legado de voduns e encantados e não há mais tempo disponível para o longo aprendizado do mistério demandado pelo Tempo maior.

E alguém, por acaso, sugere o que deve fazer o torcedor do Moto? Escolhe outro clube, com a naturalidade de quem muda de roupa e troca um objeto quebrado pelo novo? E os senhores de setenta e poucos anos que viram e viraram Moto durante a conquista do título da Copa Norte-Nordeste de 1947 e do Torneio Campeão dos Campeões do Norte em 1948?

E a nova geração - os netos dos fundadores e torcedores do velho Moto Club, o Papão do Norte, Rubro-Negro da Fabril - torcerá para quem? É simples. Os moleques torcerão, evidentemente, pela Inter de Milão, Barcelona ou Milan. Viva a globalização! Ou, na melhor das hipóteses e como é comum ocorrer, pelos clubes grandes do sul maravilha. Mas, ai deles, não terão o pertencimento que só o clube da aldeia é capaz de proporcionar.

O velho torcedor, e como é duro constatar isso, está morrendo. Em seu lugar surge o cliente dos tempos do futebol-empresa. Somos agora, os que queremos apenas torcer pelo time, tratados como clientes nos estádios, consumidores em potencial de jogos, pacotes televisivos, produtos com a marca da patrocinadora e outros balacobacos.

Morre o Moto como morre a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto. Morre o Moto como amanhã dançará, no corpo da última sacerdotisa do Tambor de Mina, o derradeiro encantado em pedra, flor, areia e vento da praia do Lençol.

Morre o Moto como morrerá, em alguma madrugada grande, o último tocador do tambor de crioula e com ele a arte de evocar no couro a memória dos mortos. Ninguém saberá como bater o tambor que convida os ancestrais a bailar entre os vivos. Seremos apenas - e cada vez mais - homens provisórios, desprovidos da permanência que só a ancestralidade e a comunidade garantem.

Morre o Moto enquanto se desencanta o mundo.

sábado, 16 de julho de 2011

Minha Gênese

Se a violência aumenta, se os casos de racismo são cada vez mais recorrentes, se a exploração aumenta de forma brutal, antes de seguirmos na luta por uma sociedade diferente, precisamos saber de onde viemos. E, embora a escola não nos ensine, viemos de um povo cuja história é rica em resistência, cultura, ancestralidade e amor. Que não percamos essa dimensão.

E que, cada um do seu jeito, encontre o seu lugar nessa luta.

Nossos ancestrais, os que morreram por nós, merecem.

Encontrei Minhas Origens


Por Oliveira Silveira

"Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei"