Aí, nesta competição, há um corpo de jurados. E entre eles, Rodrigo Lombardi, ator em ascensão, protagonista de "O Astro", me diz o Google. Que resolve, lá pelas tantas, assim justificar sua emoção com a dança recém-executada:
”Tem um cara que eu sou muito fã desde criancinha e acho que foi ele que me fez ser artista, juntamente com meu pai. Era um cara que na sua época era negro, caolho, um metro e cinquenta, chamado Sammy Davis Jr., que quando entrava no palco saía com dois metros de altura, loiro, de olho azul”.
Não quero, aqui, julgar o talento do Rodrigo, que segundo o Google (sim, ele me ajuda muito) já tem anos de carreira. Nem vou execrá-lo em praça pública, já há quem o faça, e aos montes. Quero falar de um buraco que tá bem mais lá embaixo.
O racismo no Brasil é natural. As pessoas falam sem perceber que errar é "coisa de preto", nos apontam o elevador de serviço "porque é assim mesmo", a polícia aborda os nossos porque somos "criminosos em potencial", o nosso cabelo é "ruim", e por aí vai. Tão natural que Rodrigo, estrela global - e, portanto, um cara que ajuda a ditar as regras comportamentais no Brasil - arrotou essa barbaridade sem nem ter percebido a merda que tava falando.
Não percebeu porque, na cabeça dele e da classe dominante (e de boa parte do povo preto), ser bom é ser loiro, dos olhos azuis, cabelos lisos. Não é coincidência o número absurdo de mulheres colocando seus cabelos em contato com um produto que, pra ser aplicado, exige máscaras e luvas de quem o manuseia. Olha o que isso faz mal - mas torna aquele cabelo "descuidado" algo socialmente aceito.
Um monte de gente corre pra acudir o Rodrigo, que parece até ser boa gente, até porque não nos lembra os Bolsonaros da vida. Mas é um cara que, tendo uma imagem muito mais simpática que o nobre deputado, faz um estrago muito maior do que ele ao falar sem usar o cérebro que, suponho, ele deva ter. Porque o preconceito racial no Brasil é o mais perverso que pode existir: velado, internalizado, natural. O indivíduo quase que já nasce entendendo o negro como alguém inferior, servo, menos capacitado.
E é tão natural que, amanhã, ninguém vai lembrar de porra nenhuma. Ou alguém fala do Bolsonaro? Da Myriam Rios? Ou da limpeza étnica promovida em nome dos megaeventos de 2014 e 2016 no Rio de Janeiro? É esse silêncio que mata. Porque as crianças veem esse estardalhaço todo durar alguns dias, mas absorvem cada palavra, gesto, olhar, pra além desses dias. E tenhamos certeza de que, assim, estamos formando crianças brancas racistas, crianças negras que terão a certeza de serem inferiores, em suma, um mundo muito pior.
Enquanto a discussão que é feita, de forma indignada, na Academia, ou nos coletivos de luta do movimento negro, não ganhar o subúrbio, as favelas, as periferias, a sociedade vai se indignar, levantar voz, execrar o racista em questão, e pronto, vai guardar tudo, beijo, onde é o churrasco?, e até a próxima.
Porque sempre tem a próxima.
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