Quando o Carnaval acaba, as contestações são inevitáveis, assim como as acusações de compra de resultados, etc. É parte do processo de desfiles reclamar uma melhor posição, e em 2009 não foi diferente - ah, e a Beija-Flor foi acusada de "roubar" um vice-campeonato, agora, da Portela. Era o que faltava...
Mas incômodo mesmo foi o rebaixamento do Império Serrano. Imerecido, ao contrário de 2007. Em 2009, a corte imperiana veio com garra, alegorias simples e lindas, de extremo bom-gosto, e apenas a melhor Bateria do Rio de Janeiro - vencedora, mais uma vez, do Estandarte de Ouro, prêmio do jornal O Globo.
Discutir o porquê do rebaixamento é mais complexo. O Império não permite se vender à roda-vida que toma conta dos desfiles cariocas. Não há ninguém financiando a agremiação, e nunca houve. É chão, amor, samba puro. Talvez, por isso, não seja forte politicamente a ponto de evitar ataques como os desse ano. Mas a comunidade da Serrinha é gigante, e irá se reerguer. Porque o Império, contra tudo, contra todos, mais uma vez, mostrou que Carnaval, se faz na Serrinha, se faz em Madureira.
E Silas de Oliveira, de onde estiver, gostou da nova Aquarela que balançou a Sapucaí.
Por Sergio Conde Junior
Caro Silas,
O povo da Sapucaí - você não conheceu, é onde os desfiles acontecem agora - lhe deve um agradecimento. Conduzido pelo seu samba, o Império Serrano protagonizou o momento mais emocionante do carnaval de 2004, enfeitiçando arquibancadas, frisas e camarotes a cantar junto, num quadro eletrizante, que hoje em dia raramente se vê por ali. Seu "Aquarela brasileira" levantou a platéia e injetou paixão no Império, que fez sua melhor apresentação em muitos anos. Um episódio relicário, como diria você.
A escola que você ajudou a tornar mágica veio lotada - seu hino virou uma febre no verão do Rio - de imperianos novos e históricos, como Tia Eulália, lembra dela?, 95 anos, fundadora da verde-e-branco. Toda orgulhosa (você precisava ver), ela contava que "Aquarela" foi composta em frente à casa dela.
- Eu vi esse samba nascer do Silas.
Naquela idade toda, Eulália não quis saber de subir num carro alegórico - "coisa de perua", rotulou - e foi-se embora avenida afora, no chão. Na sua paixão, ganhou surpreendente irmã: a atriz Ana Paula Arósio, estrela da televisão que se esbaldou na ala "Circo Brasil", como a foliã mais anônima. (E olha que ela é paulista!) A bela moça se acabou de sambar, a ponto de perder um pedaço da fantasia.
- Muito maravilhoso tudo isso! - explodiu, na dispersão, desmanchando-se em elogios a seu trabalho. - O samba é lindo, sair no chão é tudo de bom, quero mais!
Quando Ana Paula entregou-se às exclamações para descrever o próprio arrebatamento, mal dava para ouvir. O setor popular, prezado Silas, a turma que gosta de carnaval de verdade, simplesmente recusou-se a aceitar o fim do desfile do Império e continuou cantando, ao som da bateria. Ah, avise mestre Macarrão que os agogôs, como de hábito, estiveram impecáveis.
Não foi perfeito, fazer o quê. A porta-bandeira, Fabiana, caiu em frente à cabine dos jurados no setor 3, uma pitada de drama na festa. E o Império não se emenda com os problemas políticos que atrapalharam a produção do desfile - a pobreza das últimas alegorias foi uma prova eloqüente. Atualmente, para ganhar precisa riqueza e rigor técnico. Você não ia gostar, mas paciência, agora é assim.
Além disso, a escola estava cheia demais, tinha uma turma nova, que veio na moda do seu samba. Muito branco, você ficaria admirado. Alguns até falam "A" Império, dá pra acreditar? Mas eles cantaram e cruzaram a Sapucaí na maior felicidade - porque também ninguém resiste à "Aquarela".
Graças ao samba mágico que você compôs, o Império Serrano trouxe de volta o carnaval de verdade. Amigos seus que participaram da apresentação de 40 anos atrás contavam que, se a escola desfilasse naquele ano como fez anteontem, seria campeã. O povo da Sapucaí vai além, acha que o título tem de vir agora. Deu gosto de ver o delírio na Praça da Apoteose - inclusive com sua ajuda de ter segurado a chuva até acabar o show. Você sabe das coisas. Como, aliás, lembrou um antigo parceiro, Moacir Rodrigues, lembra dele? criador do enredo de 1964, que deu no seu samba. Extasiado na Apoteose, ele garantiu sem vacilar:
- Silas está feliz.
Então, tranqüilize Mano Décio e não esqueça de contar ao Cartola, que como você adora um carnaval de verdade. O Império, conduzido pelo grande hino que você criou, voltou a ser inesquecível.
Parabéns, mestre.
Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2004.
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