quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Deusa da passarela e da minha vida

"Razão do meu cantar feliz..." (Foto: Tata Barreto/RioTur)

"Parece que o carnaval foi roubado esse ano."

Em maio, começaram as inscrições para as alas da comunidade, numa certa escola de samba de Nilópolis. Claro, você já sabe qual é. Como sempre, é aquela movimentação lenta, mas decidida, rumo à quadra, para garantir um lugar naquilo que "é feito uma reza, um ritual" (bença, madrinha Portela, meu respeito). Em junho, começa a disputa do samba-enredo, e a festa começa a ganhar uma forma musical. Vamos ouvindo, comparando, tentando ignorar as torcidas contratadas, os escritórios...

"Parece que ganhou roubado esse ano."

Em julho/agosto, a quadra começa a encher, vários eventos, barracão passando a terceira marcha, tá tudo tão longe, mas cadê que conseguimos viver sem isso? Bora encontrar amigos daqui e de outras escolas pra tomar uma cerveja, trocar uma ideia?, bora, partiu Madureira?, partiu. Vamos em outras, também. Vamos aonde o samba estiver.

"Mas ganhou roubado."

Setembro, outubro, reta final das inscrições pras alas. Ainda dá tempo, corre, fulana tem espaço na ala dela, ih, mas a fantasia não tá legal, parece pesada, ó naquela ali, só aceita mulheres, vamo nessa, acabaram as vagas?, ufa, achamos. Reta final, também, na disputa do samba-enredo. Semifinal, final, cacete, samba bonito. Quanto mais ouço, mais lindo fica. Quem nunca?

"Mas foi roubado."

E os ensaios começam pra valer. Ensaio de canto, sem bateria, sem som, sem nada. Carnaval é coisa séria - não deveria ser tanto, mas... sinal dos tempos. Toda quarta e quinta, todo sábado e toda segunda. Ensaio de canto, ensaio de bateria, ensaio geral, ensaio de comissão de frente, Sapucaí, 4 da manhã. Ensaiam muito, né? Não cansam nunca.

"Mas é roubado, só pode."

Quase tudo pronto, dezembro. Vamos entregar o barracão em janeiro, ensaio técnico, ensaio de quadra, ensaio de rua, bateria-show, escola-show, vamos viajar, outras cidades, estados, países. Mas é em Nilópolis que a gente se acha, se encontra e se reconhece. É na Baixada que nós nos aconchegamos no ninho, olhamos pro alto e temos a certeza que Cabana queria isso, quando fundou o Beija-Flor. O bloco, que saía ali na Avenida Mirandela. Mas que cresceu, afinal, quem disse que beija-flor não voa alto?

Roubaram nossa grandeza também?

Fevereiro. Tudo pronto, vai dar tempo de chegar? A Concentração é aonde?, é no Balança, desce na Central. Não, é nos Correios, Praça Onze. São 22h, o desfile é só às 2h, mas passa rápido. Tem que beber, é Carnaval, porra. Mas a cerveja nem desce. Bora trocar ideia com quem tá perto, com quem tá longe, com quem tá parado, andando. Veste aqui, me ajuda com a fantasia, essa cabeça tá pesada, né?, o braço tá me machucando, é assim, daqui a pouco acostuma.

É sofrido, mas não nos roubem isso, por favor.

E pronto. Neguinho, ex-da Vala, que não tinha um dente na boca, anuncia, pela 39ª vez, a entrada da escola que decretou que as definições de clichê foram atualizadas. "Amada, mas odiada." "Não vi, tava no bloco, mas não mereceu." "Bonito, mas roubado."

Roubado?

Eu lamento lhes informar, mas pedindo licença para você que me lê e tem olhos sensíveis, nosso povo tá cagando pro seu julgamento. Na verdade, sentimos o mesmo pelo julgamento seja lá de quem for. Bom mesmo é olhar pra si mesmo e se ver grande. Bom mesmo é o orgulho de pertencer à uma aldeia distante, quente, limitada e calorosa, mas onde se faz samba, onde se conquista títulos e onde se obtém o respeito do mundo do samba. Do samba de um ano todo, amigos (tem samba o ano todo, sabiam?), não dos mimados torcedores de quarta-feira de cinzas.

Precisamos discutir o carnaval. Precisamos discutir o preço dos ingressos, precisamos trazer o sambista de volta, precisamos garantir transparência na gestão de recursos, precisamos prestar contas, precisamos discutir o financiamento - seja ele vindo de governos democráticos, "democráticos", ditatoriais, ou do tráfico. Ou do bicho. Carnaval recebe dinheiro público, de dentro e de fora do Brasil, muito antes de você descobrir que Guiné Equatorial existia. Precisamos fazer tudo isso porque Carnaval é festa do povo, construída por ele e para ele. Construída por Cabana, João, pelo meu pai e minha mãe, por mim, pelos meus ancestrais, por você, pelos seus e por quem, cada um do seu jeito, ama e respeita tudo isso.

Mas antes, precisamos respeitar o esforço de seis mil pessoas que, direta ou indiretamente, colocam o carnaval de cada escola naquela reta que começa no Centro e termina no Catumbi. Ou que coloca todo seu amor e sua dedicação na Intendente, lugar onde a emissora dona da festa não vai. Intendente, gente, fica lá em Campinho. Lá só cabe amor, drama, dor, delícia, culpa e redenção. Lá só cabe a vida. Mas se nem lá você vai, fica difícil te defender, amor.

Eu quero dizer que estavam todas lindas, todas vocês. Sempre estão e sempre estarão. Eu sempre vou me curvar diante de uma bandeira de escola de samba. Cada uma me traz uma sensação diferente: me sinto impactado quando entro na quadra da Mangueira, me sinto acolhido quando vou à Portela, me sinto feliz na União da Ilha, ou num santuário quando vou ao Império Serrano e... me sinto em casa, no ninho, quando entro na Beija-Flor, ali na Pracinha Wallace Paes Leme, aqui em Nilópolis, morada da Deusa da Passarela.

Eu juro que queria ser capaz de tornar toda essa emoção palpável, só pra você tentar sentir por 5 minutos o que eu, graças aos mais velhos, aos meus pais e ao samba, sinto a vida inteira. Acredite, isso "prende, inebria, entontece". Não é roubo, não.

É fascinação, amor.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Há dores que valem mais?

Hoje de manhã me deparo com a seguinte capa, do jornal "O Dia":


A manchete retrata "o duro convívio com o preconceito", dando voz à muçulmanas que são vítimas de agressões nas ruas do Rio, num relato assustadoramente cruel de uma série de ataques sofridos por duas mulheres - uma empresária e uma estudante universitária. Mas a capa e os relatos me incomodaram duas vezes - e uma delas, suponho, não era o objetivo do jornal.

A capa é da edição do dia 2 de fevereiro, quando se comemora, no Brasil, o Dia de Iemanjá. Numa sociedade que afaga e apedreja como a nossa, Iemanjá é estigmatizada, demonizada e agredida o ano todo pela ignorância racista que transforma tudo o que é de África em algo ruim, mas recebe incontáveis rosas no dia 31 de dezembro, porque, afinal, no Ano Novo pode, né?

E é aí que eu queria chegar. Por que as religiões de matriz africana não têm o mesmo espaço na capa de um jornal de ampla circulação como "O Dia", ou qualquer outro? Por que as agressões, os insultos, as portas de emprego fechadas, os estigmas, as dores e os traumas dos praticantes da Umbanda e do Candomblé não recebem o mesmo tratamento da sociedade?

Exemplos não nos faltam. Vivemos numa sociedade onde o racismo é hipócrita, velado, relativizado e encoberto por panos quentes. Convivemos com juízes desprovidos de qualquer bom senso, que se julgam maiores que a lei, se achando no direito de dizer que Umbanda e Candomblé nem são religiões. Vivemos uma época em que traficantes proíbem Candomblé e até roupa branca em favelas do Rio.

Na Baixada Fluminense, um terreiro é incendiado pela sexta vez em seis anos - sem contar a tentativa de homicídio sofrida pela sua mãe-de-santo. Na Bahia, pedra sagrada do Candomblé é pichada e oferendas, destruídas. Minha pesquisa durou menos de dez minutos, só utilizou o Google e achou bem mais do que isso, mas vou parar por aqui. Você já viu algo assim na capa de um jornal? Na chamada de um telejornal? Mas no Dia de Iemanjá, vimos "O Dia" problematizar a terrível (e é terrível mesmo) situação que as mulheres muçulmanas vivem no Rio.

Nosso racismo hipócrita produz uma série de comportamentos curiosos. Produz o cidadão que toca "pagode gospel", onde há uma completa desconstrução do gênero musical, de suas origens e de seus motivos de existência, para que ele sirva aos propósitos do Deus Mercado - no caso, um mercado "santo"; produz o racista de ocasião, como o santista que defendeu o Aranha, agredido por imbecis gremistas, mas também proferiu ofensas racistas quando o goleiro deixou o clube, indo para o Palmeiras.

Temos o cristão fervoroso, praticante, cidadão de bem, que diz que "bandido bom é bandido morto"; temos o já citado sujeito que ofende os "macumbeiros" mas prepara sua oferenda no dia 31 de dezembro, e por aí vai. Incontáveis exemplos de uma sociedade fraturada, hipócrita, hostil, intolerante, seletiva e racista.

Um jornal, lógico, é o reflexo de uma sociedade. Em sua redação trabalham pessoas com diferentes pontos de vista, e ao lermos um jornal dando destaque à um determinado tema em detrimento de outros, é porque a sociedade também o faz. E os interesses mercadológicos da chefia dessa redação e desse jornal, claro, seguem o interesse da sociedade, ao mesmo tempo em que a molda e a conduz. É uma roda viva, complexa e - vá lá, eu me permito - quase sempre perversa.

Não pratico qualquer religião. Tenho um entendimento sobre ela polêmico e particular demais - mas esse é um assunto para uma outra resenha. Mas me sinto à vontade para dizer tudo o que disse por entender que todos e todas têm total direito à acreditarem no que quiserem - mesmo que seja não acreditarem em nada.

Lutar pela liberdade de culto é fundamental para todas as religiões - mas lutar pela liberdade de culto da Umbanda e do Candomblé é, acima de tudo, lutar pelo fim do racismo.

Muita paz às mulheres muçulmanas, e muita paz também ao Povo do Santo.