segunda-feira, 4 de abril de 2016

Somos todos assassinos de crianças

Por que atiramos em crianças? (Fotos: Reprodução/Internet)
Há 26 dias, Caio Daniel Faria, de 14 anos, foi morto durante ação policial em Manguinhos enquanto jogava bola em uma localidade conhecida como... Campo da Esperança. Você nem deve ter sabido, ou se soube, nem deve lembrar, faz quase um mês, são tempos corridos, ninguém se importa.

A mãe de Caio, que preferiu não se identificar, se importa. Caio era uma criança e, quando não nos importamos com a morte de uma criança, é porque a matamos também.

Três dias antes da morte de Caio no Rio, Ana Beatriz Duarte e Sá, de 5 anos, brincava numa festa na casa do tio, no bairro Santa Catarina, em São Gonçalo, quando, de repente, caiu. O tio, ao socorrer a menina, percebeu que sua cabeça sangrava. Ana Beatriz fora atingida por uma bala que, de perdida, não tem nada (já viu, por exemplo, brancos serem atingidos por uma? Já flagrou balas voando a esmo pela Zona Sul carioca? Então). Após dias agonizando no hospital, a menina não resistiu e morreu.

Ana Beatriz tinha o sorriso lindo, como o de toda criança. Você lembra dela? Tem quase um mês, verdade, é difícil lembrar. E toda vez que esquecemos de uma criança morta a tiros, matamos-a um pouco também. Vê o sangue em suas mãos?

No domingo passado, enquanto você festejava a Páscoa na intenção de agradar um Cristo ressuscitado, Ryan Gabriel brincava na porta da casa dos avós, em Madureira. Sua cruz veio em forma de bala: o menino, atingido por um tiro, morreu. Ryan tinha 4 anos. Quatro. E sua mãe, Tayane Pereira da Silva, aos 20 anos, outra menina, portanto, se despedaçava durante o enterro de seu único rebento: "volta, meu filho!"

Ah, dessa você lembra. Quer ver? Ó: lembra da principal rua de Madureira fechada, de ônibus pegando fogo, das estações Otaviano e Vila Queiroz, do BRT, depredadas? Eu sei, você lembra sim.

Você lembra da "ação de vândalos que prejudicam a vida de um trabalhador", mas não lembra que isso se deu por causa de uma criança morta a tiros. Toda vez que você ignora a morte de uma criança, acaba contribuindo para que se mate a próxima. Você ajudou a matar Ryan.

Em menos de um mês, três crianças mortas. E contando.

Na tarde do último sábado, Matheus Santos Moraes, aos 5 anos, brincava de bolinha de gude na porta de casa quando, infelizmente, a gloriosa e tosca Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro entrou atirando em sua rua, na comunidade da Lagoa, em Magé. Matheus morreu. Mas a imprensa só se deslocou até Magé porque, em protesto, o morro desceu - e não foi Carnaval: 12 ônibus depredados e incendiados, lojas saqueadas, fúria e dor de uma gente pobre e preta que só é vista quando toca o zaralho. Se não tivessem incendiado a cidade, você nem saberia que matou o menino Matheus.

Por que você se ressente com os transtornos causados pelos protestos, mas não se ressente com uma criança que morreu sem viver absolutamente nada? Ônibus queimado é pouco. Cidade em chamas, caos, destruição, nada disso chega perto do transtorno que é (ou deveria ser) a morte de uma criança. Criança morta deveria causar a reinvenção do mundo, a prisão do comando da PM, do governador do estado, da presidente da República. E só no último mês, 4 morreram. Quatro! E em tempos de Lava-Jato, impeachment e similares, quem liga? Por não ligarmos, as matamos. Por não ligarmos, elas seguirão morrendo - e num mundo cada vez mais egoísta, nós só torcemos para que a criança morta não seja a nossa. Não será.

Até ser.

E Patrícia Moraes, a mãe de Matheus, que talvez já não acredite mais na vida, nas instituições, nem no certo/errado, em carma e similares, se pergunta: "eu espero criar meu filho Gabriel, né? Será que eu vou conseguir criar o meu filho Gabriel? Porque Matheus eu não consegui."

E não conseguiu porque nós matamos Matheus. Assim como matamos Caio, Ana Beatriz e Ryan. E no fim das contas, quando você relativiza a morte de uma criança e foca apenas num ônibus queimado, quem está morto, e nem sabe, é você.

Nos perdoem, crianças. Nos perdoem, mães. A gente não tem mais jeito.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A esperança em uma bomba-relógio

(Foto: Eduardo Naddar - Agência O Dia)

Vamos lá.

Vocês estão anotando? Patrick, Elizabeth, Eduardo, Rafael, Wanderson, Gilson. E agora, Christian. Tem mais: só esse ano, 408 pessoas morreram em supostos confrontos com a gloriosa polícia militar. Esse número é até julho. Logo, 408 e contando. Logo (2), Christian nem estatística ainda é.

É suportável viver numa sociedade onde ir à praia é uma atitude suspeita, dependendo da cor da sua pele? E viver num lugar onde jogar bola é perigoso não pelo contato físico, inerente ao esporte, mas pela chance de se levar um tiro de uma polícia assassina e caçadora de pobre?

"Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar..."

Por que o corpo preto estirado no chão não comove você? E se Christian estivesse andando de bicicleta na Lagoa, você teria pena dele? Sim, eu sei que você pensaria que ele tava ali para assaltar alguém - afinal, "esse vagabundo já tinha quatro passagens, já roubou, pra matar não custa, tem que morrer mesmo." Matar não é certo, desde que o morto não seja preto - aí pode. Não é assim que você pensa? Confessa, vai. Não tem ninguém te olhando...

A "ideologia da eliminação" é amplamente defendida pela classe média decadente, reacionária, violenta e ignorante que assola o Brasil. Por trás desse ideário, há o racismo velado, covarde, enraizado, simbolizado por elevadores de serviço, por cadeiras de engraxate, por vidros que sobem quando atravessamos a rua ou por pedradas que atingem a cabeça de crianças de turbante, guia e fé numa religião de preto...

"Esse é o xis da questão:
já viu eles chorar pela cor do Orixá?"

Nas redes sociais, pessoas mudam a cor de suas fotos para dizerem, em alto e bom amor: "love wins!" Você não concorda, claro - e tomado por um ódio doentio e infeliz, vaticina: "mas de criança passando fome na África ninguém fala!

Mas criança passando fome na sua cidade tem que morrer, segundo você. Qual é a sua lógica, amigo? Explica porque eu não consigo entender. Porque você, defensor da família, da moral, dos bons costumes, que come a secretária fora de casa, que vai no sapatinho atrás das "travestis" madrugada adentro, que faz aquelas piadas racistas que seus amiguinhos adoram... você luta pelo quê? Já sei: você se afunda nessa cadeira de onde me lê agora, prepara os dedos e diz que "tem que prender, tem que bater, favela só tem bandido, sementinha do mal, cadeia neles!"

"E os camburão, o que são?
Negreiros a retraficar..."

Você não quer resolver problema nenhum, né? Você quer continuar reclamando enquanto uma pá de gente continuar ameaçando seus privilégios. "Onde já se viu, um monte de preto, pobre, viado, um monte de mulher!, reclamar tanto? Muito mimimi, agora tudo é opressão."

Lindão, você ainda não percebeu, mas seu mundo tá caindo. Aquela parada de "disculpa, sinhô", de cabeça baixa, já era. Se você falar merda, será confrontado. Será cobrado. Será colocado contra a parede. E dada a sua pouca coragem, voltará atrás, dirá que foi um "mal-entendido", afinal, sua avó era negra, você tem amigos negros, você até fica com negras, né? Você já falou isso. Você é um otário.

Favela tá em pé porque nós estamos de pé desde a Diáspora. Nossos irmãos tombam através do seu chicote ou do seu fuzil, mas nenhum deles fica pra trás. Christian e todos os outros estão entre nós. E levamos todos conosco enquanto preparamos a sua queda, sinhô, a sua derrocada, sinhá.

"Favela ainda é senzala, jão
Bomba-relógio prestes a estourar..."

Tic-tac. Nós por nós.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Redução da capacidade mental

Frase escrita por um adolescente num muro da Escola João Luiz Alves, unidade do Degase na Ilha do Governador, Rio

Na manhã de 29 de agosto de 1997, o menino Ives Yoshaki Ota, 8 anos, foi sequestrado em casa, na zona leste da cidade de São Paulo. Após investigações, descobriu-se que a criança fora sequestrada e assassinada por dois policiais militares e um civil - todos, portanto, maiores de idade.

Corte rápido. 2015.

Iolanda Keiko Miashiro Ota, a mãe do menino sequestrado e morto, veste uma camisa com a imagem do filho. Deputada federal eleita para seu segundo mandato graças à sua tragédia pessoal, comemora a aprovação da tramitação da PEC 171, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos, dizendo que tal lei vai "diminuir a impunidade".

Entre impunidade e oportunismo, na noite de ontem, 1º de julho de 2015, fez-se meia-noite na história do Brasil: a juventude preta e pobre foi condenada às trevas de uma cadeia que não recupera ninguém - e nem foi feita para recuperar. Entre "democracia" (sic) e o Golpe, com G maíusculo, de Eduardo Cunha e seus patrocinadores, aprovou-se o terror: está aberta a temporada de caça ao jovem preto - tal como no século XIX, quando uma polícia recém-criada tinha como principal objetivo correr atrás de escravo "fujão".

Keiko Ota, a mãe que perdeu o filho, não tira a camisa com a imagem de seu menino morto. Não tira, também, o sorriso de quem se sente feliz por mandar pra cadeia meninos e meninas que, na verdade, deveriam ser mandados pra escola, como seu filho ia. Pra escola ou pro parque. Pro campinho. Pra fazer música, dança. Pra jogar videogame. Pra brincar de boneca. Pra receber todo o amor que a sociedade acha que só alguns merecem.

Mas para essa mãe, síntese de uma sociedade doente, em nome do seu menino, crianças têm que ir para a cadeia. Sua lógica cretina e covarde a fez defender uma emenda constitucional assassina, racista e classista, defendida por seus pares, pessoas que ao mesmo tempo em que defendem redução da maioridade penal, defendem também a privatização dos presídios. Percebam: mais presos, cadeias privadas. Se ligou? Há gente lucrando com isso.

Assim como há gente lucrando com a histeria de uma classe média que só sabe gritar, agredir, bater panela na varanda e chamar a Dilma de "vagabunda". Há gente lucrando com a absurda sensação de insegurança que, sim, nos consome - mas que só incomoda quando é do túnel pra lá. Onde um tiro (ou uma facada, como queiram) vale mais, em Benfica ou na Lagoa? Que vida vale mais, a do branco de classe média que vende drogas, ou a do negro favelado traficante?

"Bandido bom é bandido morto", mas se um amigo seu estupra uma mina você diz que foi um "mal-entendido". "Melhor do que foto colorida é lutar pelo fim da fome na África", mas se um moleque te pede um trocado pra comer você vira até a cara (e não, a África não é um país). "Tá com pena leva pra casa", "queria ver se fosse contigo", "tomara que estupre uma filha sua"... percebam: o ódio de vocês é doentio, obsessivo e mais violento do que o moleque que porta um canivete. E se diante disso tudo, o culto de domingo te traz paz, é porque sua fé é por comodismo, auto-salvação ou medo. Na prática, você não acredita em nada - só não tem coragem de admitir.

Reduzir a maioridade penal é, em resumo, encarcerar mais pretos e pobres, negando-lhes qualquer oportunidade de mobilidade social. Vocês podem defender o que quiserem, mas pelo menos sejam honestos e assumam que o que vocês querem, no fundo, é isso mesmo. E tem o seguinte: a partir de agora, jovens de 16 anos podem comprar e consumir bebidas alcoólicas e cigarro, podem dirigir e também fazer filmes pornográficos. As prisões para maiores de idade, já absolutamente saturadas, ainda receberão, a partir de agora jovens de 16 a 18 anos. E quando sua sensação de impunidade não passar (não, ela não vai passar), o que você vai defender? Redução para 14 anos? 12? Que tal encarcerar a mulher grávida, e soltá-la, junto com seu filho, apenas mediante bom comportamento?

Mas você não pensou nada disso. Sou capaz de dizer que você sequer pensou, contaminado pelo pavor dantesco (ou datenesco?) propagado pelos programas de TV do início da noite, apavorado por uma política de segurança pública que só sabe usar a polícia e a porrada, e acuado por uma lógica perversa que preconiza que tudo o que é ameaça tem que sair da sua frente. Nem que seja para debaixo do tapete. Só cuidado para não tropeçar ao andar nele.

Eu morro de pena, e é tudo o que eu consigo sentir por vocês. Porque há anos lido com os sistemas penal e sócio-educativo, e repito: aquilo não funciona, nem foi criado para recuperar ninguém. Enquanto minha luta é para esvaziar aquilo, a de vocês é para encher, cada vez mais. Mas, mesmo assim, a minha luta é ali, por eles, ouvindo as histórias deles, olhando em seus olhos, ouvindo suas mães. Minha luta é ali, tentando criar, junto com eles, uma alternativa à condenação que vocês lhes impuseram. E seja qual for a maioridade penal, eu estarei lá amanhã. E depois, também.

E de novo. E sempre.

sábado, 4 de abril de 2015

"Polícia passa e fica a dor"*

(Arte: Vitor Teixeira)
Crucificamos mais um menino Jesus.

Se há dois mil anos, soldados romanos mataram Jesus, o Cristo de Nazaré, hoje soldados da PM carioca mataram um outro Jesus: Eduardo, o menino do Alemão. Na falta de uma cruz, o método foi bem mais cruel: a pacificação.

Com um caderno na mão, sentado na porta de casa, Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, fora atingido por um tiro de fuzil na cabeça, a uma distância de menos de 10 metros, pelas costas, por um capitão-do-mato covarde, empoderado por uma farda criada para servir e proteger tudo o que não for preto e pobre.

O menino tinha sonhos. No dia seguinte à sua morte, por exemplo, começaria um curso. No futuro, queria ser bombeiro. E morreu sem realizá-los, pois eles, os sonhos do menino Eduardo de Jesus, ficaram pela parede, misturados aos pedaços de seu cérebro estraçalhado, junto com seu sangue e com os gritos desesperados de seus pais, de mulheres e de homens sem voz, espalhados na composição de uma cena de terror que, não, não estreou nos cinemas. Na verdade, está longe de ser uma estreia - e está longe de ser ficção.

O soldado que pacificou Eduardo de Jesus ameaçou a mãe dele, Teresinha Maria de Jesus, dizendo que faria o mesmo com ela. Mais uma Maria chorava em uma Semana Santa. Ao pai, o carrasco de uma criança reservou palavras igualmente duras: "seu filho era vagabundo igual você". Enquanto tentava juntar os pedaços da cabeça de seu filho, José Maria Ferreira de Sousa tentava digerir a justificativa do algoz de sua criança mais amada. Tentava entender o que estava acontecendo, em que mundo estava, se aquilo era Alemão, Bagdá ou o inferno.

Era o inferno pacificado.

Teresinha Maria de Jesus, graças às forças de pacificação, terá que conviver para sempre com a dor de ver um filho morrer. Não fará isso de perto: cansada de uma cidade que lhe tirou a alma, se mudará para o Piauí, sua terra natal, onde irá enterrar seu filho, por não querer vê-lo descansar eternamente neste "lugar maldito".

Na verdade, malditos são aqueles que criam uma mentira chamada "polícia pacificadora", em nome de uma cidade-produto, feita para o deleite de empreiteiras que visam apenas a multiplicação de seus lucros através de megaeventos tão grandes quanto a violência produzida pelo Estado nas favelas.

Que pacificação é essa que, por onde passa, só traz dor? A PM carioca, por onde passa, deixa gritos, desconfiança, propinas, arregos, truculência, sangue, dor e mortes, muitas. Horas antes de pacificarem o menino Eduardo, um valoroso policial militar colocou o fuzil dentro da janela de um barraco e, como diz um certo imbecil na TV (e repetem seus imbecis seguidores), "sentou o dedo": Elizabeth de Moura Francisco, 40 anos, levou um tiro no pescoço e, pacificada, morreu. Sua filha, de 14 anos, atingida no braço, foi socorrida.

Em dois dias, quatro pessoas, duas senhoras e dois meninos, foram mortos pelo Estado no Complexo do Alemão. Elizabeth, Eduardo, DG, Cláudia e Amarildo (aliás, onde ele está?) foram pacificados por uma política de segurança racista, classista, covarde e exclusivamente policial - isso porque citei apenas os casos que tiveram relativo espaço na mídia. E os outros? Aqueles que não saem no jornal? E a Baixada, e São Gonçalo, e o interior? Em qualquer sociedade que queira ser levada a sério, o secretário de Segurança estaria preso, junto com o governador do Estado. Aqui, somos nós os prisioneiros, obrigados a engolir notas oficiais, declarações de "rigor na apuração" e, claro, o clássico "não iremos recuar".

Mas estamos acuados. Estamos contra a parede há tempos - a mesma parede onde, hoje, graças a um policial militar pacificador, escorre o cérebro do menino Eduardo de Jesus.

Estado pacificador: "polícia passa e fica a dor".

(*O título desse texto é o nome de um rap de um cara chamado MC Calazans​. E essa é minha homenagem a um rapper, preto, morador do Alemão, que usa a cultura, a luta e o coração para mudar o lugar onde vive - e ainda por cima, pra minha sorte, ainda é um parceiro com quem eu tive a honra de trocar várias ideias. Os bons são maioria.)

domingo, 1 de março de 2015

Um Rio de 450 janeiros


Rio, precisamos conversar.

Quando eu era criança, minha mãe avisava: "dia tal, vamos na cidade". E era um acontecimento. Aqui na Baixada, engraçado, a gente te chama assim. E eu ficava dias pensando em você. Não eram tempos muito confortáveis, então eu ia até o Centro, só. Mas tinha lanche, tinha eu atravessando as quatro pistas da Av. Presidente Vargas gritando de nervoso, aquilo era enorme, tinha minha mãe morrendo de rir, era uma delícia.

Tinha mais.

Meu tio sempre levava a gente à praia. Fazia assim: ia até a Central, de ônibus, e pegava mais um pro Flamengo. Descia na Praia e entrava andando. E aí eu comecei a te desvendar. Comecei logo pela vista mais famosa do mundo porque sou desses: quantas e quantas fotos já tiraram de você nesse ângulo, com o Pão de Açúcar ao fundo? Você fica ótima assim. Linda pose.

Disco Voador, Imperator, festa junina na Maré, Olimpo. Eu fui apresentado ao seu lado C. Mas não tô reclamando não, cara. Cariocas chamam a mulher de "cara", né? É legal isso. Então... desde cedo aprendi a amar todos os seus lados. Você é complexa mesmo, cheia de mágoas mas sempre sustentando aquele sorriso que nego atravessa meio mundo só pra ver.

E aí, comecei a namorar, aquela neguinha foi uma dádiva pra mim, presente seu, eu sei. E você emoldurou todo aquele amor. E cara, ela morava no térreo em Botafogo, quase Humaitá, mas dava pra ver o Cristo da janela! De frente! Tem noção? Até hoje, eu olho pra ele lá em cima, de braços abertos, e me sinto guardado, feliz e agradecido por ter sido escolhido pra viver algo tão lindo.

Lindo te descobrir, Rio. Lindo viver na Ilha, lindo desvendar suas favelas, seu povo, subir o Chapéu (porra, que vista, hein?), entrar na Maré, conhecer o Alemão. Churrasco em Ramos, cervejinha na Vila da Penha, e aquele rolé em Realengo? Av. Brasil, eu tô sempre nela, amor. Irajá tem samba, Sapucaí tem desfile, Marechal tem batata, Madureira tem... ah, Madureira tem muito amor em cada rua, cada quadra, cada esquina. A encruzilhada da cidade que se confunde aqui dentro de mim.

Tem a Lapa, tem a Praça Mauá, tem onde nossos pretos mais velhos chegaram, doídos pela viagem que lhes arrancou a alma, os nomes e qualquer história. Mas não lhes arrancou a dignidade. E estamos aqui, de pé, mesmo pilhados, moídos, seja pelos senhores de outrora, seja pelos senhores atuais, bandidos de terno e mandato que insistem em acabar com você. Mas você é boa nesse negócio de se reinventar, né? E sempre ressurge mais linda, mais quente. Cada vez mais gostosa, haja tesão pra te aguentar uma noite inteira, mas vem, a gente aguenta.

Claro, meu amor, eu gosto das suas praias também. Praia Vermelha, Arpoador, morro dos prazeres que você me dá. Mas é que delas, as praias, todo mundo fala e, você sabe, eu detesto ser comum. Mas eu deixei tanta coisa de fora... olha, na verdade, vim aqui pra conversar. Você já me viu tão feliz, já me viu chorando, já me viu nervoso, já me viu bêbado - desculpa, eu sei, me viu muito bêbado. Mas hoje eu tô aqui, cansado do que fazem com você, com medo do que você vai virar, mas completamente apaixonado por você e pela sua beleza.

Não é você, não sou eu. A gente sabe quem tá fazendo isso, né? Lógico. Olha, eu preciso de um tempo. Talvez precise ir ali, talvez precise respirar, mas eu volto. Pra você eu sempre volto. Você me deu tudo o que eu tenho, me deu tantos amigos, tantas risadas, tantos dramas. Me deu tantos amores, ah, os amores... sinto o gosto de cada um como se ainda estivessem aqui, comigo. Talvez ainda estejam. Verdade, sempre estarão.

Você sempre vai estar comigo, Rio. A gente tá tentando te entender há 450 anos e não consegue, é que você também é foda, não facilita, mas não é pra ser fácil, né? Eu só queria agradecer, por tanto amor, por tanta proteção, por tanto me ensinar, por me acolher, por me divertir, por me consolar e por me fazer crescer. Aquele menino que atravessava a rua gritando de nervoso (não ri, eram quatro pistas), hoje não grita. Mas o coração bate igual. Não, mentira: bate mais forte. Impossível ser indiferente à você.

Se cuida, tá? São 450 janeiros.

Te amo, Rio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Deusa da passarela e da minha vida

"Razão do meu cantar feliz..." (Foto: Tata Barreto/RioTur)

"Parece que o carnaval foi roubado esse ano."

Em maio, começaram as inscrições para as alas da comunidade, numa certa escola de samba de Nilópolis. Claro, você já sabe qual é. Como sempre, é aquela movimentação lenta, mas decidida, rumo à quadra, para garantir um lugar naquilo que "é feito uma reza, um ritual" (bença, madrinha Portela, meu respeito). Em junho, começa a disputa do samba-enredo, e a festa começa a ganhar uma forma musical. Vamos ouvindo, comparando, tentando ignorar as torcidas contratadas, os escritórios...

"Parece que ganhou roubado esse ano."

Em julho/agosto, a quadra começa a encher, vários eventos, barracão passando a terceira marcha, tá tudo tão longe, mas cadê que conseguimos viver sem isso? Bora encontrar amigos daqui e de outras escolas pra tomar uma cerveja, trocar uma ideia?, bora, partiu Madureira?, partiu. Vamos em outras, também. Vamos aonde o samba estiver.

"Mas ganhou roubado."

Setembro, outubro, reta final das inscrições pras alas. Ainda dá tempo, corre, fulana tem espaço na ala dela, ih, mas a fantasia não tá legal, parece pesada, ó naquela ali, só aceita mulheres, vamo nessa, acabaram as vagas?, ufa, achamos. Reta final, também, na disputa do samba-enredo. Semifinal, final, cacete, samba bonito. Quanto mais ouço, mais lindo fica. Quem nunca?

"Mas foi roubado."

E os ensaios começam pra valer. Ensaio de canto, sem bateria, sem som, sem nada. Carnaval é coisa séria - não deveria ser tanto, mas... sinal dos tempos. Toda quarta e quinta, todo sábado e toda segunda. Ensaio de canto, ensaio de bateria, ensaio geral, ensaio de comissão de frente, Sapucaí, 4 da manhã. Ensaiam muito, né? Não cansam nunca.

"Mas é roubado, só pode."

Quase tudo pronto, dezembro. Vamos entregar o barracão em janeiro, ensaio técnico, ensaio de quadra, ensaio de rua, bateria-show, escola-show, vamos viajar, outras cidades, estados, países. Mas é em Nilópolis que a gente se acha, se encontra e se reconhece. É na Baixada que nós nos aconchegamos no ninho, olhamos pro alto e temos a certeza que Cabana queria isso, quando fundou o Beija-Flor. O bloco, que saía ali na Avenida Mirandela. Mas que cresceu, afinal, quem disse que beija-flor não voa alto?

Roubaram nossa grandeza também?

Fevereiro. Tudo pronto, vai dar tempo de chegar? A Concentração é aonde?, é no Balança, desce na Central. Não, é nos Correios, Praça Onze. São 22h, o desfile é só às 2h, mas passa rápido. Tem que beber, é Carnaval, porra. Mas a cerveja nem desce. Bora trocar ideia com quem tá perto, com quem tá longe, com quem tá parado, andando. Veste aqui, me ajuda com a fantasia, essa cabeça tá pesada, né?, o braço tá me machucando, é assim, daqui a pouco acostuma.

É sofrido, mas não nos roubem isso, por favor.

E pronto. Neguinho, ex-da Vala, que não tinha um dente na boca, anuncia, pela 39ª vez, a entrada da escola que decretou que as definições de clichê foram atualizadas. "Amada, mas odiada." "Não vi, tava no bloco, mas não mereceu." "Bonito, mas roubado."

Roubado?

Eu lamento lhes informar, mas pedindo licença para você que me lê e tem olhos sensíveis, nosso povo tá cagando pro seu julgamento. Na verdade, sentimos o mesmo pelo julgamento seja lá de quem for. Bom mesmo é olhar pra si mesmo e se ver grande. Bom mesmo é o orgulho de pertencer à uma aldeia distante, quente, limitada e calorosa, mas onde se faz samba, onde se conquista títulos e onde se obtém o respeito do mundo do samba. Do samba de um ano todo, amigos (tem samba o ano todo, sabiam?), não dos mimados torcedores de quarta-feira de cinzas.

Precisamos discutir o carnaval. Precisamos discutir o preço dos ingressos, precisamos trazer o sambista de volta, precisamos garantir transparência na gestão de recursos, precisamos prestar contas, precisamos discutir o financiamento - seja ele vindo de governos democráticos, "democráticos", ditatoriais, ou do tráfico. Ou do bicho. Carnaval recebe dinheiro público, de dentro e de fora do Brasil, muito antes de você descobrir que Guiné Equatorial existia. Precisamos fazer tudo isso porque Carnaval é festa do povo, construída por ele e para ele. Construída por Cabana, João, pelo meu pai e minha mãe, por mim, pelos meus ancestrais, por você, pelos seus e por quem, cada um do seu jeito, ama e respeita tudo isso.

Mas antes, precisamos respeitar o esforço de seis mil pessoas que, direta ou indiretamente, colocam o carnaval de cada escola naquela reta que começa no Centro e termina no Catumbi. Ou que coloca todo seu amor e sua dedicação na Intendente, lugar onde a emissora dona da festa não vai. Intendente, gente, fica lá em Campinho. Lá só cabe amor, drama, dor, delícia, culpa e redenção. Lá só cabe a vida. Mas se nem lá você vai, fica difícil te defender, amor.

Eu quero dizer que estavam todas lindas, todas vocês. Sempre estão e sempre estarão. Eu sempre vou me curvar diante de uma bandeira de escola de samba. Cada uma me traz uma sensação diferente: me sinto impactado quando entro na quadra da Mangueira, me sinto acolhido quando vou à Portela, me sinto feliz na União da Ilha, ou num santuário quando vou ao Império Serrano e... me sinto em casa, no ninho, quando entro na Beija-Flor, ali na Pracinha Wallace Paes Leme, aqui em Nilópolis, morada da Deusa da Passarela.

Eu juro que queria ser capaz de tornar toda essa emoção palpável, só pra você tentar sentir por 5 minutos o que eu, graças aos mais velhos, aos meus pais e ao samba, sinto a vida inteira. Acredite, isso "prende, inebria, entontece". Não é roubo, não.

É fascinação, amor.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Há dores que valem mais?

Hoje de manhã me deparo com a seguinte capa, do jornal "O Dia":


A manchete retrata "o duro convívio com o preconceito", dando voz à muçulmanas que são vítimas de agressões nas ruas do Rio, num relato assustadoramente cruel de uma série de ataques sofridos por duas mulheres - uma empresária e uma estudante universitária. Mas a capa e os relatos me incomodaram duas vezes - e uma delas, suponho, não era o objetivo do jornal.

A capa é da edição do dia 2 de fevereiro, quando se comemora, no Brasil, o Dia de Iemanjá. Numa sociedade que afaga e apedreja como a nossa, Iemanjá é estigmatizada, demonizada e agredida o ano todo pela ignorância racista que transforma tudo o que é de África em algo ruim, mas recebe incontáveis rosas no dia 31 de dezembro, porque, afinal, no Ano Novo pode, né?

E é aí que eu queria chegar. Por que as religiões de matriz africana não têm o mesmo espaço na capa de um jornal de ampla circulação como "O Dia", ou qualquer outro? Por que as agressões, os insultos, as portas de emprego fechadas, os estigmas, as dores e os traumas dos praticantes da Umbanda e do Candomblé não recebem o mesmo tratamento da sociedade?

Exemplos não nos faltam. Vivemos numa sociedade onde o racismo é hipócrita, velado, relativizado e encoberto por panos quentes. Convivemos com juízes desprovidos de qualquer bom senso, que se julgam maiores que a lei, se achando no direito de dizer que Umbanda e Candomblé nem são religiões. Vivemos uma época em que traficantes proíbem Candomblé e até roupa branca em favelas do Rio.

Na Baixada Fluminense, um terreiro é incendiado pela sexta vez em seis anos - sem contar a tentativa de homicídio sofrida pela sua mãe-de-santo. Na Bahia, pedra sagrada do Candomblé é pichada e oferendas, destruídas. Minha pesquisa durou menos de dez minutos, só utilizou o Google e achou bem mais do que isso, mas vou parar por aqui. Você já viu algo assim na capa de um jornal? Na chamada de um telejornal? Mas no Dia de Iemanjá, vimos "O Dia" problematizar a terrível (e é terrível mesmo) situação que as mulheres muçulmanas vivem no Rio.

Nosso racismo hipócrita produz uma série de comportamentos curiosos. Produz o cidadão que toca "pagode gospel", onde há uma completa desconstrução do gênero musical, de suas origens e de seus motivos de existência, para que ele sirva aos propósitos do Deus Mercado - no caso, um mercado "santo"; produz o racista de ocasião, como o santista que defendeu o Aranha, agredido por imbecis gremistas, mas também proferiu ofensas racistas quando o goleiro deixou o clube, indo para o Palmeiras.

Temos o cristão fervoroso, praticante, cidadão de bem, que diz que "bandido bom é bandido morto"; temos o já citado sujeito que ofende os "macumbeiros" mas prepara sua oferenda no dia 31 de dezembro, e por aí vai. Incontáveis exemplos de uma sociedade fraturada, hipócrita, hostil, intolerante, seletiva e racista.

Um jornal, lógico, é o reflexo de uma sociedade. Em sua redação trabalham pessoas com diferentes pontos de vista, e ao lermos um jornal dando destaque à um determinado tema em detrimento de outros, é porque a sociedade também o faz. E os interesses mercadológicos da chefia dessa redação e desse jornal, claro, seguem o interesse da sociedade, ao mesmo tempo em que a molda e a conduz. É uma roda viva, complexa e - vá lá, eu me permito - quase sempre perversa.

Não pratico qualquer religião. Tenho um entendimento sobre ela polêmico e particular demais - mas esse é um assunto para uma outra resenha. Mas me sinto à vontade para dizer tudo o que disse por entender que todos e todas têm total direito à acreditarem no que quiserem - mesmo que seja não acreditarem em nada.

Lutar pela liberdade de culto é fundamental para todas as religiões - mas lutar pela liberdade de culto da Umbanda e do Candomblé é, acima de tudo, lutar pelo fim do racismo.

Muita paz às mulheres muçulmanas, e muita paz também ao Povo do Santo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Querida Maria

Oi, Maria. Tudo bem? Eu espero que sim.

Eu queria falar com você. Sendo honesto, é sobre você. Eu não sei muito sobre sua vida. Na verdade, até essa semana, a sociedade não sabia nem da sua existência, menina. Você é capaz de nos perdoar em relação a isso?

Na verdade, nenhum de nós sabemos muito sobre quem você é, ou de onde veio. Mas eu sei que você gosta de brincar, né? Então... quando criança, às vezes, eu gostava de brincar de ser invisível. Fingia que botava uma capa que não deixava ninguém me ver. Você, menina, mesmo sem usar nenhuma capa, ficou invisível esse tempo todo. Não, não precisa me dizer como conseguiu, eu sei, a gente sabe, né? E em todos os seus 5 anos de existência, você esteve invisível para uma cidade inteira.

Até resolver tomar banho dentro de um bueiro, no centro da cidade olímpica.

Você deve estar assustada, Maria, com tanta gente subitamente interessada na sua vida. Querendo te ajudar, ajudar sua família. Família que, por ora, corresponde à sua avó - dona Raimunda, o nome dela, né? Sei que ela veio do Rio Grande do Norte com o pai e sete irmãos, todos já mortos. Sei que vocês, hoje, moram num barraco em uma favela de São João de Meriti, Baixada Fluminense, e aguardam, já cadastradas, por um apartamento do programa "Minha Casa, Minha Vida". Ó, Maria... não fala muito sobre isso não, tá? Sabe essa gente interessada na sua vida? Então, muitos deles acham errado um programa assim. Dizem que é preciso "ensinar a pescar". Quando você crescer, prometo que te explico.

Viu como eu já sei um pouco mais sobre você? É comum, depois de uma história assim, as pessoas se interessarem mais sobre a vida de quem as comove. Mas elas vão te esquecer logo, Maria. É assim mesmo, até a próxima Maria aparecer, talvez um José, ou até mesmo um gatinho, um cachorrinho, essa gente é assim, e aí você vai voltar a ser invisível, vai voltar a sofrer com o descaso, a violência, os riscos social e econômico. Eu tô falando difícil, né? Você só tem 5 anos. Não devíamos estar conversando sobre isso, nem sobre seus banhos em bueiros - aliás, quantos você já tomou? Em quantos te fotografaram?

Devíamos estar falando sobre a Barbie na sua blusinha, e sobre você gostar tanto de rosa. Devíamos estar falando sobre brincar de comidinha, de casinha, de boneco, de bola, queimado, do que você quiser. O rosa, da sua blusa, da saia, da sandalinha, realmente é uma cor bonita, que fica ainda mais bonita em você. Mas vão te dizer, em breve, que seu cabelo não é bonito. Que sua pele parece suja. E você provavelmente vai acreditar, porque não vai ver sua cor na TV, nos outdoors ou em homens engravatados, nem em mulheres de terninho. Mas não acredite, não. Em ninguém. Você é absolutamente linda, seu sorriso é lindo, seu cabelo, sua cor. "Da pele cor da noite", e também da cor de chocolate. Chocolate não é bonito? Você gosta de chocolate, né? Sim, é bom mesmo.

Maria, eu juro que queria te dizer, também, que não vamos te esquecer. Mas eu não posso te prometer isso porque eu acredito ser um crime mentir para uma criança. O que eu posso te dizer, com a mais absoluta certeza, é que eu tô trabalhando, assim como um punhado de gente, para que histórias como a sua nunca mais aconteçam. Nunca mais.

Pra terminar, Maria, porque o tio sabe que já tá chato: você quer ser professora, né? Sabe que minha mãe teve uma história bem parecida com a sua? Ninguém sequer a enxergava, na casa dela também não tinha água, nem banheiro. E, hoje, ela é professora, sonho que tinha quando era menina. Menina igual você.

Eu tava errado, Maria. Não vamos te esquecer, não. Um beijo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Dia Nacional do Samba

Hoje é dia de Donga, de Seu Casquinha e de Seu Molequinho. É dia de Jovelina e de Silas de Oliveira. Comemoramos Candeia, Cartola e Nelson Cavaquinho. Festejamos as Tias Eulália, Ciata e Surica. Contemplamos Dona Mijinha, Manaceia e Mano Décio da Viola. Cultuamos Roberto Ribeiro, Dona Neuma, João Nogueira e Dona Zica. Admiramos Neguinho da Beija-Flor, Wilson das Neves, Zé Keti, Noel Rosa, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Zeca Pagodinho. Vamos ouvir Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Bezerra da Silva, Agepê e muitos, muitos, muitos outros.

Citei 32 sambistas, um pra cada ano da minha vida. E é incrível que tenham ficado de fora dessa lista a grande maioria deles. O samba, mais do que um gênero musical, é a expressão maior da cultura, da resistência e da originalidade brasileiras. Me orgulho muito de poder cantar, nas batucadas das quais participo, caras que ouvia quando moleque. É um privilégio ir numa roda de samba e ver, bem na minha frente, um compositor de algo que, pra mim, é uma obra-prima. Temos os nossos gênios, espalhados por aí.

Parabéns pra nós. Viva o samba!

Tirando a poeira

Todo mundo precisa de terapia. Como eu não tenho coragem de pagar (caro) por um terapeuta, (re) ativarei este espaço, agora como divã. Não sei se alguém vai chegar a ler, mas se um desavisado chegar a esse ponto, peço desculpas de antemão, por tanta ladainha.

Peço, também, paciência. No fundo, eu sou legal.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Racismo

No último domingo, o "Domingão do Faustão" levou ao ar um quadro chamado "Dança dos Famosos", que é mais um daqueles elementos simplórios de como nossa sociedade cultua as "celebridades" que surgem, pelo simples fato de existirem - seja cantando, dançando, enfurnada numa casa 24 horas por dia, fazendo o que não importa.

Aí, nesta competição, há um corpo de jurados. E entre eles, Rodrigo Lombardi, ator em ascensão, protagonista de "O Astro", me diz o Google. Que resolve, lá pelas tantas, assim justificar sua emoção com a dança recém-executada:



 ”Tem um cara que eu sou muito fã desde criancinha e acho que foi ele que me fez ser artista, juntamente com meu pai. Era um cara que na sua época era negro, caolho, um metro e cinquenta, chamado Sammy Davis Jr., que quando entrava no palco saía com dois metros de altura, loiro, de olho azul”.

Não quero, aqui, julgar o talento do Rodrigo, que segundo o Google (sim, ele me ajuda muito) já tem anos de carreira. Nem vou execrá-lo em praça pública, já há quem o faça, e aos montes. Quero falar de um buraco que tá bem mais lá embaixo.

O racismo no Brasil é natural. As pessoas falam sem perceber que errar é "coisa de preto", nos apontam o elevador de serviço "porque é assim mesmo", a polícia aborda os nossos porque somos "criminosos em potencial", o nosso cabelo é "ruim", e por aí vai. Tão natural que Rodrigo, estrela global - e, portanto, um cara que ajuda a ditar as regras comportamentais no Brasil - arrotou essa barbaridade sem nem ter percebido a merda que tava falando.

Não percebeu porque, na cabeça dele e da classe dominante (e de boa parte do povo preto), ser bom é ser loiro, dos olhos azuis, cabelos lisos. Não é coincidência o número absurdo de mulheres colocando seus cabelos em contato com um produto que, pra ser aplicado, exige máscaras e luvas de quem o manuseia. Olha o que isso faz mal - mas torna aquele cabelo "descuidado" algo socialmente aceito.

Um monte de gente corre pra acudir o Rodrigo, que parece até ser boa gente, até porque não nos lembra os Bolsonaros da vida. Mas é um cara que, tendo uma imagem muito mais simpática que o nobre deputado, faz um estrago muito maior do que ele ao falar sem usar o cérebro que, suponho, ele deva ter. Porque o preconceito racial no Brasil é o mais perverso que pode existir: velado, internalizado, natural. O indivíduo quase que já nasce entendendo o negro como alguém inferior, servo, menos capacitado.

E é tão natural que, amanhã, ninguém vai lembrar de porra nenhuma. Ou alguém fala do Bolsonaro? Da Myriam Rios? Ou da limpeza étnica promovida em nome dos megaeventos de 2014 e 2016 no Rio de Janeiro? É esse silêncio que mata. Porque as crianças veem esse estardalhaço todo durar alguns dias, mas absorvem cada palavra, gesto, olhar, pra além desses dias. E tenhamos certeza de que, assim, estamos formando crianças brancas racistas, crianças negras que terão a certeza de serem inferiores, em suma, um mundo muito pior.

Enquanto a discussão que é feita, de forma indignada, na Academia, ou nos coletivos de luta do movimento negro, não ganhar o subúrbio, as favelas, as periferias, a sociedade vai se indignar, levantar voz, execrar o racista em questão, e pronto, vai guardar tudo, beijo, onde é o churrasco?, e até a próxima.

Porque sempre tem a próxima.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Morre o Moto

O texto já tem quase um ano, eu sei - e, em Internet, isso quer dizer séculos. Mas é simplesmente o melhor texto sobre futebol que eu já li em toda a minha vida.

Exatamente porque não se resume ao futebol.

Morre o Moto

Por Luiz Antonio Simas
http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/08/morre-o-moto.html

Recebi hoje a confirmação de uma notícia lamentável. O Moto Club de São Luís, um dos principais clubes do Maranhão, dono de imensa torcida, encerrou as atividades no futebol profissional neste último dia 27 de agosto. A diretoria do Moto declarou não ter mais condições para manter o time diante das demandas do futebol atual [leia-se: falta grana].

Lamentável, rigorosamente lamentável , mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times.

Morre o Moto no momento em que morrem também as camisas dos clubes, mantos sagrados transformados em vitrines de exposição de toda a sorte de produtos: telefonia celular, pomada de vaca, plano de saúde, leite condensado, funerária, montadora de automóvel, empresa da construção civil e quejandos. Dia chegará em que os escudos serão tirados da camisa para sobrar espaço pra mais um jabazinho e ninguém perceberá.

Morre o Moto em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor, dos fabulosos investimentos para a realização da Copa de 2014, dos técnicos com salários de quinhentos mil reais, dos bandidos da bola e dos apóstolos dos gramados e seus moralismos de ocasião.

Morre o Moto como corre o risco de desaparecer a tradição do tambor de crioula do Maranhão. Nas palavras de um velho tambozeiro que conheci em Alcântara, os lugares onde se podia escutar o tambor são agora destinados ao reggae, para a alegria de antropólogos moderninhos e antenados que vêem em qualquer mistureba uma prova de vitalidade cultural. Viva o moderno e que se dane o eterno, goza o deus mercado.

Morre o Moto como pode morrer a Casa das Minas, venerável matriz da religiosidade afro-maranhense. As moças mais novas, dizem as velhas do tambor, não se interessam mais pelo legado de voduns e encantados e não há mais tempo disponível para o longo aprendizado do mistério demandado pelo Tempo maior.

E alguém, por acaso, sugere o que deve fazer o torcedor do Moto? Escolhe outro clube, com a naturalidade de quem muda de roupa e troca um objeto quebrado pelo novo? E os senhores de setenta e poucos anos que viram e viraram Moto durante a conquista do título da Copa Norte-Nordeste de 1947 e do Torneio Campeão dos Campeões do Norte em 1948?

E a nova geração - os netos dos fundadores e torcedores do velho Moto Club, o Papão do Norte, Rubro-Negro da Fabril - torcerá para quem? É simples. Os moleques torcerão, evidentemente, pela Inter de Milão, Barcelona ou Milan. Viva a globalização! Ou, na melhor das hipóteses e como é comum ocorrer, pelos clubes grandes do sul maravilha. Mas, ai deles, não terão o pertencimento que só o clube da aldeia é capaz de proporcionar.

O velho torcedor, e como é duro constatar isso, está morrendo. Em seu lugar surge o cliente dos tempos do futebol-empresa. Somos agora, os que queremos apenas torcer pelo time, tratados como clientes nos estádios, consumidores em potencial de jogos, pacotes televisivos, produtos com a marca da patrocinadora e outros balacobacos.

Morre o Moto como morre a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto. Morre o Moto como amanhã dançará, no corpo da última sacerdotisa do Tambor de Mina, o derradeiro encantado em pedra, flor, areia e vento da praia do Lençol.

Morre o Moto como morrerá, em alguma madrugada grande, o último tocador do tambor de crioula e com ele a arte de evocar no couro a memória dos mortos. Ninguém saberá como bater o tambor que convida os ancestrais a bailar entre os vivos. Seremos apenas - e cada vez mais - homens provisórios, desprovidos da permanência que só a ancestralidade e a comunidade garantem.

Morre o Moto enquanto se desencanta o mundo.

sábado, 16 de julho de 2011

Minha Gênese

Se a violência aumenta, se os casos de racismo são cada vez mais recorrentes, se a exploração aumenta de forma brutal, antes de seguirmos na luta por uma sociedade diferente, precisamos saber de onde viemos. E, embora a escola não nos ensine, viemos de um povo cuja história é rica em resistência, cultura, ancestralidade e amor. Que não percamos essa dimensão.

E que, cada um do seu jeito, encontre o seu lugar nessa luta.

Nossos ancestrais, os que morreram por nós, merecem.

Encontrei Minhas Origens


Por Oliveira Silveira

"Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei"

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rei


Foi meu primeiro ídolo na vida, como já tive vários. Hoje, não tenho nenhum. Mas quando criança, me lembro de imitá-lo (quem nunca fez isso?). Era fantástico vê-lo dançar, cantar, hipnotizar qualquer um que o visse. Muito será dito. Filmes, documentários, teorias da conspiração, tudo isso e mais ainda será ventilado aqui, ali, nos quatro cantos desse mundo. Sim, nos quatro, porque um Rei tem alcance mundial. E, hoje, o planeta ficou menos talentoso, a música perdeu parte preciosa de si.

Perder... a maior dádiva que a música nos dá é fazer com que as obras criadas fiquem pra sempre. Portanto, não sei se perder é bem a palavra. Mas, certamente, o mundo da música estava em suspense pelos shows do Rei, no mês que vem, em Londres. Era a volta de um cara que reinventou a música, recriou o videoclipe, influenciou muita gente. Em resumo, era a volta aos palcos do artista cujo álbum foi o mais vendido da história até hoje. Desde 1982.

Michael Jackson inspirou mães pelo mundo, que queriam ver os seus filhos com nomes de um Rei. Michael foi o primeiro artista negro a chegar ao topo das paradas de sucesso dos Estados Unidos e da Inglaterra, ao mesmo tempo. E lá ficou até que sete das nove músicas do avassalador "Thriller" fossem curtidas, consumidas, apreciadas, todas em primeiro lugar em tais listas musicais. Eram os súditos, saudando a chegada do Rei. E assim, seu recorde, de 100 milhões de cópias vendidas, certamente nunca será superado, ainda mais em dias de pirataria, YouTube e músicas MP3 - por falar em tecnologias, o último ato do Rei foi derrubar o Twitter, a nova febre da Internet, que ficou fora do ar por intermináveis horas, tamanha a quantidade de acessos em busca de notícias de Sua Alteza, o Rei do Pop.

Ao anunciar novos shows, para 2009, vimos todos os ingressos se esgotarem em um dia. Ali se entendeu que ele sempre foi grande, único. Talvez o sentimento de perda, do qual falei lá no início, se refira à isso: imagens que nunca veremos, de um Rei de encontro com o que reinventou, de encontro com seus seguidores. A imagem de um espectro será esquecida, e na memória de todos, assim como aconteceu com Elvis, ficará aquele gênio em estado puro, imortalizado através de sua dança, sua música. Um dia será dito que "Michael não morreu". E, talvez, não mesmo...

Só nos resta agradecer. E continuar ouvindo, apreciando e mostrando aos nossos filhos, netos, que nós tivemos o privilégio de ver um gênio em ação. Alguém que, enquanto pôde, tratou a música como ela merece, como algo único, tratando-a com um perfeccionismo próprio dos seres humanos diferenciados, dotados de um talento extraordinário.

O mundo estranho e injusto em que vivemos faz de um Negro Drama alguém sempre massacrado, cobrado, vigiado de perto. E com o Rei não foi diferente. Mas como ele mesmo cantava: aonde estiver, nunca estará sozinho...

sábado, 21 de março de 2009

Imperianos de fé

Quando o Carnaval acaba, as contestações são inevitáveis, assim como as acusações de compra de resultados, etc. É parte do processo de desfiles reclamar uma melhor posição, e em 2009 não foi diferente - ah, e a Beija-Flor foi acusada de "roubar" um vice-campeonato, agora, da Portela. Era o que faltava...

Mas incômodo mesmo foi o rebaixamento do Império Serrano. Imerecido, ao contrário de 2007. Em 2009, a corte imperiana veio com garra, alegorias simples e lindas, de extremo bom-gosto, e apenas a melhor Bateria do Rio de Janeiro - vencedora, mais uma vez, do Estandarte de Ouro, prêmio do jornal O Globo.

Discutir o porquê do rebaixamento é mais complexo. O Império não permite se vender à roda-vida que toma conta dos desfiles cariocas. Não há ninguém financiando a agremiação, e nunca houve. É chão, amor, samba puro. Talvez, por isso, não seja forte politicamente a ponto de evitar ataques como os desse ano. Mas a comunidade da Serrinha é gigante, e irá se reerguer. Porque o Império, contra tudo, contra todos, mais uma vez, mostrou que Carnaval, se faz na Serrinha, se faz em Madureira.

E Silas de Oliveira, de onde estiver, gostou da nova Aquarela que balançou a Sapucaí.

Por Sergio Conde Junior

Caro Silas,

O povo da Sapucaí - você não conheceu, é onde os desfiles acontecem agora - lhe deve um agradecimento. Conduzido pelo seu samba, o Império Serrano protagonizou o momento mais emocionante do carnaval de 2004, enfeitiçando arquibancadas, frisas e camarotes a cantar junto, num quadro eletrizante, que hoje em dia raramente se vê por ali. Seu "Aquarela brasileira" levantou a platéia e injetou paixão no Império, que fez sua melhor apresentação em muitos anos. Um episódio relicário, como diria você.

A escola que você ajudou a tornar mágica veio lotada - seu hino virou uma febre no verão do Rio - de imperianos novos e históricos, como Tia Eulália, lembra dela?, 95 anos, fundadora da verde-e-branco. Toda orgulhosa (você precisava ver), ela contava que "Aquarela" foi composta em frente à casa dela.

- Eu vi esse samba nascer do Silas.

Naquela idade toda, Eulália não quis saber de subir num carro alegórico - "coisa de perua", rotulou - e foi-se embora avenida afora, no chão. Na sua paixão, ganhou surpreendente irmã: a atriz Ana Paula Arósio, estrela da televisão que se esbaldou na ala "Circo Brasil", como a foliã mais anônima. (E olha que ela é paulista!) A bela moça se acabou de sambar, a ponto de perder um pedaço da fantasia.

- Muito maravilhoso tudo isso! - explodiu, na dispersão, desmanchando-se em elogios a seu trabalho. - O samba é lindo, sair no chão é tudo de bom, quero mais!

Quando Ana Paula entregou-se às exclamações para descrever o próprio arrebatamento, mal dava para ouvir. O setor popular, prezado Silas, a turma que gosta de carnaval de verdade, simplesmente recusou-se a aceitar o fim do desfile do Império e continuou cantando, ao som da bateria. Ah, avise mestre Macarrão que os agogôs, como de hábito, estiveram impecáveis.

Não foi perfeito, fazer o quê. A porta-bandeira, Fabiana, caiu em frente à cabine dos jurados no setor 3, uma pitada de drama na festa. E o Império não se emenda com os problemas políticos que atrapalharam a produção do desfile - a pobreza das últimas alegorias foi uma prova eloqüente. Atualmente, para ganhar precisa riqueza e rigor técnico. Você não ia gostar, mas paciência, agora é assim.

Além disso, a escola estava cheia demais, tinha uma turma nova, que veio na moda do seu samba. Muito branco, você ficaria admirado. Alguns até falam "A" Império, dá pra acreditar? Mas eles cantaram e cruzaram a Sapucaí na maior felicidade - porque também ninguém resiste à "Aquarela".

Graças ao samba mágico que você compôs, o Império Serrano trouxe de volta o carnaval de verdade. Amigos seus que participaram da apresentação de 40 anos atrás contavam que, se a escola desfilasse naquele ano como fez anteontem, seria campeã. O povo da Sapucaí vai além, acha que o título tem de vir agora. Deu gosto de ver o delírio na Praça da Apoteose - inclusive com sua ajuda de ter segurado a chuva até acabar o show. Você sabe das coisas. Como, aliás, lembrou um antigo parceiro, Moacir Rodrigues, lembra dele? criador do enredo de 1964, que deu no seu samba. Extasiado na Apoteose, ele garantiu sem vacilar:

- Silas está feliz.

Então, tranqüilize Mano Décio e não esqueça de contar ao Cartola, que como você adora um carnaval de verdade. O Império, conduzido pelo grande hino que você criou, voltou a ser inesquecível.

Parabéns, mestre.

Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2004.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Povo Preto

É a primeira postagem do ano. Um 2009 em que, pela primeira vez na História, um negro governará a América - e, por tabela, o mundo. Pela primeira vez, também, um negro usará o número 1, de campeão mundial, num carro de Fórmula 1. Dizem, os mais otimistas, que será o Ano Preto. Quem dera...

São inegáveis as conquistas do povo preto. Igualmente inegável é o fato de que são pequenas, diante do imenso abismo que nos separa da plenitude de acesso aos direitos básicos de todo cidadão. Os exemplos de racismo explicitados na mídia são diretos, explícitos. Mas sabemos que o racismo é, na maioria das ocorrências, velado, diário, cotidiano, na forma de elevadores de serviço, ou de desconforto branco ao ver um negro entrar num ônibus, ou de branqueamento do acesso ao ensino superior, etc.

E mais: é impossível entender o racismo e os crimes cometidos contra o povo preto sem considerar fatores econômicos, culturais. Ou você realmente acha que a política genocida do Governo do Estado do Rio de Janeiro se dá apenas por causa da cor de pele, sem relação com a pobreza? Preto e pobre não são a mesma coisa, mas na realidade de uma sociedade racista, se tornam muito parecidos...

E quanto mais nos prepararmos pra identificar esse preconceito, essa lógica criminosa com os irmãos, mais preparados estaremos pra reação. Bom, estou até mais otimista. Que seja nosso ano, pois.

Paz ao povo preto, sempre.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A barbárie capitalista, segundo Saramago

Poucos, hoje, entendem tão bem o mundo como ele.

Por Mair Pena Neto
http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=4232

Em visita ao Brasil para apresentar seu novo livro e inaugurar uma exposição, o escritor português José Saramago lançou questões sobre o atual estágio da humanidade. “A palavra bondade hoje significa qualquer coisa de ridículo. É preciso conquistar, triunfar. Ninguém se arrisca a dizer que seu objetivo é ser bom. Querer ser bom em uma época como esta é se apresentar como voluntário para a eliminação”, disse Saramago.

O desenvolvimento do capitalismo chegou ao estágio da barbárie, com o desdém pelo próximo e o amor desenfreado pelo dinheiro e o poder. Para motivar seus funcionários, Steve Ballmer, o atual presidente da Microsoft, diz, aos berros, que ama a companhia. Se ama o seu próximo, não se sabe, mas que é capaz de dar a vida pela Microsoft parece provável pelo teor de seu discurso, que pode ser visto na internet.

Na competição desenfreada, um quer engolir o outro. Parece que não existe mais espaço para a convivência de concorrentes. O capitalismo pós-moderno enterra uma de suas máximas de que a concorrência é a alma do negócio. Nos workshops, o logotipo ou até mesmo produtos dos concorrentes são literalmente alvejados por funcionários em transe, nos quais é instilado o vírus da destruição.

Estes valores corporativos se disseminam na sociedade como um todo. O bem sucedido é o agressivo, o que aparece, o que traz resultados. Nem que para isso lance mão de práticas pouco ortodoxas. Neste universo, não há mais espaço para a solidariedade.

A atual crise financeira global começou assim, pela ganância, pela facilidade dos lucros rápidos mesmo que alavancados em bases frágeis. Quem ganhou, ganhou, quem perdeu, e nesse caso foram as economias de todos os países, que trate de lidar com os prejuízos. Nessa crise, até empresas se deram mal. Foram deixadas quebradas por dirigentes admirados que saíram com os bolsos recheados por bônus ofensivos.

A recessão que se avizinha prejudica, sobretudo, os mais pobres. O mundo subdesenvolvido, que jamais chegou perto das benesses ultracapitalistas, perde mais uma chance de avançar um estágio.

Como chegamos a isso?, indaga Saramago, perplexo, como todas as pessoas de bem, com os níveis de violência, corrupção e indiferença. Não existe uma única resposta e o escritor nos sugere que para mudarmos a vida precisamos mudar de vida.

Podemos começar sugerindo às novas gerações que busquem suas futuras profissões pensando em como poderiam contribuir para o bem comum. Que não coloquem a remuneração em primeiro plano, que ela vem como consequência da realização. E que esta não se mede apenas pelos ganhos financeiros, mas, sobretudo, pela função social de suas atividades.

Parece utópico, mas é uma tentativa. Sem um primeiro gesto tudo pode ficar como está. Mesmo com mais uma crise que jogou o mundo no chão e revelou a falência de um modelo que agoniza mas ainda não morreu.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Brecht

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Esse imbecil não sabe que, da sua ignorância política, nascem a prostituta, a criança abandonada e o pior de todos os bandidos: o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

(Bertold Brecht)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ramom e Daniel

Atingido por um tiro disparado por um policial, na porta de casa em plena manhã do dia 28, na favela do Muquiço, em Deodoro, Rio de Janeiro, o menino Ramom foi levado para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Como não havia neurocirurgião, recebeu apenas os primeiros socorros e foi encaminhado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde, por volta de 14h, começou a ser operado. Às 18h30, ele saiu do hospital, que não tinha CTI, e foi levado para o Hospital da PM. Mas era tarde demais. Uma semana após o crime, a Polícia Civil fará a reconstituição do caso. Não se faz idéia de quem seja o culpado. A mãe do menino acusa a Justiça de negligência.

Daniel foi baleado na madrugada do dia 28, em confusão na saída da boate Baronetti, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi atingido no tórax pelo terceiro tiro disparado pelo PM Marcos Parreira do Carmo, que antes deu dois tiros para o alto. O policial militar será denunciado por homicídio doloso nesta terça-feira. A mãe do rapaz se mostrou satisfeita com a posição do Ministério Público. “Eu não esperava outra coisa. Isso mostra que estamos no caminho certo. Agora vamos para cima, para a condenação. Vou acompanhar tudo isso de perto”, avisa a mãe, que ainda se choca por precisar lutar pelo que considera um direito.

Os dois crimes citados acima aconteceram quase ao mesmo tempo. Foram cometidos por policiais militares. E o tratamento diferenciado às vítimas é desumano, cruel. Nesse caso, a Justiça enxerga, e assim fazendo comete outro crime. Isso é o reflexo de uma cidade partida. Deodoro fica a uma hora de Ipanema, mas a real distância entre os dois bairros é de anos-luz. A família do Daniel acha um absurdo lutar por um direito, mas a de Ramom nem reconhece isso como direito, porque suas vidas valem um voto, um número na estatística.

Quantos e quantos casos parecidos aconteceram? Em quantas vezes ficou claríssima a diferença de tratamento, através do corte de renda? Aqui, há um fato novo e macabro: a coincidência de dia e, praticamente, de hora. Daria um filme. Você pagaria o ingresso?

Não precisa. Pega um trem pro subúrbio e abre a janela.

sábado, 28 de junho de 2008

O sentimento não pára!

Noite agitada. Fui dormir sonhando que Roberto Dinamite, o maior ídolo da história do maior clube da minha vida, se tornara presidente do Vasco, mandando Eurico Miranda pra vala do esquecimento. Ovacionado nas ruas do Rio de Janeiro, Roberto prometia, no meu sonho, acabar com privilégios, trazer o Vasco de volta para as disputas esportivas, respeitar torcida, imprensa.

Que sonho! Parecia tão real, e logo lembrei de como o Corinthians se livrou de Dualib, ou de como Mustafá Contursi foi chutado pra longe do Palmeiras. Mas, era tão impossível até bem pouco tempo... é só um sonho mesmo.

Mas aí, acordei. E é tudo verdade.

Parabéns, vascaíno. Estamos de volta. Dinamite Presidente!

Marco Zero

Vocês chegaram a este blog por algum motivo: ou porque procuraram no Blogger, ou porque eu dei o endereço, enchi o saco pra entrarem, etc. Pois, neste post inicial, quero explicar a proposta deste espaço.

A Internet está saturada de lugares assim, com dublê de escritores, como eu, dividindo espaço com gente que sabe o que faz. Mas eu sinto falta de um canal pra escrever o que sinto, penso, acho das coisas. Mesmo que ninguém leia, comente, também é um exercício feito pra mim mesmo.

Aqui, então, espero falar de tudo. O título do blog, Samba Esporte Clube, é uma alusão a duas das minhas maiores paixões: o samba e o futebol. Um professor meu diz que tudo se discute, não devemos construir tabus em torno desse ou daquele assunto. Assim, toda e qualquer temática é permitida e obrigatória: política, religião, sexo, cinema, até fofoca.

Espero fazer deste espaço um lugar de construção coletiva. Espero que gostem e participem ativamente.

Camaradas de luta, ou não, sejam bem-vindos!